sexta-feira, outubro 30, 2009
Numa escola perto de si
Não é por acaso que surge mais um filme francês sobre o problema da indisciplina e violência nas escolas. Estreou este mês, em Portugal, o filme La Journée de la Jupe (O Dia da Saia), protagonizado por Isabelle Adjani.
Os argumentistas e realizadores reconhecem o potencial dramático da vida actual (vulgo bandalheira) nas escolas. Não é em França que há, como em Portugal, uma chamada «maioria sociológica de esquerda»? Uma certa esquerda adepta do facilitismo e do laxismo...
Só as as consequências efectivas obrigará os governos, as escolas e as sociedades a tomar medidas de bom senso. Deve fazer parte da decadência de boa parte das sociedades ocidentais... A escola reflecte logo a realidade social.
Alguém escreveu que se trata de um filme que «aborda de uma forma provocativa, de tão realista, os problemas que os professores enfrentam no seu dia-a-dia na formação das nossas gerações futuras.»
Curioso que, mesmo nas escolas, muitos não conseguem admitir a realidade. Quem está dentro do aquário não dá conta da água. Quem foi estudante e se formou como professor depois do 25 de Abril de 1974 tende a achar ainda mais natural a «bandalheira» nas escolas. É como o ar que se respira.
O Dia da Saia é «um drama sobre uma professora, Sonia Bergerac, vítima de descontrolo emocional causado pelo stress incutido pela indisciplina dos seus alunos. Um dia descobre na sala de aula uma arma a sair de uma mochila, toma-a e, à falta de melhor solução, usa-a para controlar os alunos he poder tentar dar a matéria. Um drama intenso que nos apresenta um rol de problemas habituais nas escolas francesas, mas também nas portuguesas, como indisciplina, abusos sexuais, racismo e até violência para com os docentes.»
Outra proposta em francês:
Entre Les Murs (A Turma)
sábado, outubro 17, 2009
Falar verdade
Falar verdade, por mais politicamente incorrecto que seja. Falar verdade, doa a quem doer."A educação em Portugal é um crime de «lesa-juventude»: Com a fantasia do ensino dito «inclusivo», têm lá uma data de gente que não quer estudar, que não faz nada, não fará nada, nem deixa ninguém estudar. Para que é que serve estar lá gente que não quer estudar? Claro que o pessoal que não quer estudar está lá a atrapalhar a vida aqueles que querem estudar. Mas é inclusiva.... O que é inclusiva? É para formar tontos? Analfabetos?"
"Os exames são uma vergonha. Você acredita que num ano a média de Matemática é 10, e no outro ano é 14? Acha que o pessoal melhorou desta maneira? Por conseguinte a única coisa que posso dizer é que é mentira! Está-se a levar a juventude para um beco sem saída. Esta juventude vai ser completamente desgraçada!"
"Isto da avaliação dos professores não é começar por lado nenhum. Eu já disse à Ministra uma vez «A senhora tem uma agenda errada"» Porque sem pôr disciplina na escola, não lhe interessa os professores. Quer grandes professores? Eu também, agora, para quê? Chegam lá os meninos fazem o que lhes dá na cabeça, insultam, batem, partem a carteira e não acontece coisa nenhuma. Vale a pena ter lá o grande professor? Ele não está para aturar aquilo... Portanto tem que haver uma agenda para a Educação. Eu sou contra a autonomia das escolas. Isso é descentralizar a «bandalheira»."
"Se aparece aqui uma pessoa para falar verdade, os vossos comentadores dizem «este tipo é chato, é pessimista».... Se vem aqui outro trafulha a dizer umas aldrabices fica tudo satisfeito..."
Medina Carreira
(Entrevista conduzida por Mário Crespo, Sic Notícias, 09.03.2009)
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quinta-feira, setembro 24, 2009
Discurso de Barack Obama aos estudantes em 08.09.2009
O discurso de Barack Obama aos estudantes americanos, em 8 de Setembro último, é interessante, embora possa ser contestado em alguns aspectos como "Eu já falei sobre a responsabilidade dos vossos professores vos inspirarem e fazer-vos aprender": aos professores não cabe sobretudo ensinar as matérias? Cuidado com o romantismo do "inspirar".
Destaco as passagens que resumem a minha luta nos últimos anos, em contexto escolar (parece que uma certa esquerda e uma certa direita, em Portugal - José Sócrates não tem coragem para seguir Obama nesta matéria: prefere entreter-se a desmotivar e a hostilizar os professores -, ainda não compreenderam o peso dos valores universais do trabalho, da disciplina e da responsabilidade do estudante no seu sucesso: preferem a complacência e o facilitismo, falsamente democratizantes e inclusivos, porque as pessoas não ficam preparadas para a vida real):
«At the end of the day, we can have the most dedicated teachers, the most supportive parents, and the best schools in the world – and none of it will matter unless all of you fulfill your responsibilities. Unless you show up to those schools; pay attention to those teachers; listen to your parents, grandparents and other adults; and put in the hard work it takes to succeed.»
«And that’s what I want to focus on today: the responsibility each of you has for your education. I want to start with the responsibility you have to yourself.»
«At the end of the day, the circumstances of your life – what you look like, where you come from, how much money you have, what you’ve got going on at home – that’s no excuse for neglecting your homework or having a bad attitude. That’s no excuse for talking back to your teacher, or cutting class, or dropping out of school. That’s no excuse for not trying.»
«No one’s born being good at things, you become good at things through hard work.»
Em português:
«No final do dia, podem ter os professores mais dedicados, os pais mais atenciosos, as melhores escolas do mundo e nada disso terá importância a não ser que todos vocês cumpram as vossas responsabilidades. A não ser que vocês compareçam a essas escolas, prestem atenção a esses professores, ouçam os vossos pais, avós e adultos e tenham o empenho necessário para obter sucesso.»
«E é nisso que eu quero focar-me hoje: na responsabilidade que cada um de vocês tem na vossa própria educação. Eu quero começar com a responsabilidade que vocês têm com vocês mesmos.»
«Mas no final do dia, as circunstâncias da tua vida - como te pareces, de onde vens, quanto dinheiro tens, o que está acontecendo na tua casa - não é desculpa para negligenciares o teu trabalho de casa ou ter uma má atitude. Não é desculpa para dar uma resposta rude ao professor, ou faltar às aulas, ou desistir da escola. Não é desculpa para não tentar.»
«Ninguém nasceu a saber bem as coisas, tornas-te bom por via do trabalho duro.»
Esta luta tem sido feita neste blogue:
Valores do trabalho e da responsabilidade moribundos nas escolas
Menor qualidade e fraca atitude dos estudantes madeirenses
Indisciplina por resolver nas escolas da Madeira
Realidade escolar
Insucesso escolar vem de longe 3
Insucesso escolar vem de longe 2
Insucesso escolar vem de longe 1
Gastar mais e ter dos piores resultados
quarta-feira, setembro 09, 2009
Formação: Uma Experiência Pedagógica Alternativa, partilha entre agentes de ensino
Acção de formação/partilha de experiências pedagógicas orientada pelos docentes Sofia Canha e Nélio Sousa, nos dias 9, 10 e 11 de Setembro, na Escola Básica e Secundária da Calheta.HORÁRIO:
9 de Setembro: 09h00 às 13:00 e das 14:00 às 17:00
10 de Setembro: 09h00 às 13:00
11 de Setembro: 09h00 às 13:00
OBJECTIVOS:
-Contribuir para melhorar a qualidade do sistema educativo;
-Interpelar os docentes para suscitar a mudança
-Divulgar e partilhar experiências pedagógicas
-Dar a conhecer o modelo pedagógico da Escola Moderna
-Reflectir sobre as práticas no âmbito do MEM
-Partilhar materiais
-Construir materiais
PLANO/CONTEÚDOS DA ACÇÃO:
1.Enquadramento pedagógico do modelo proposto.
2.Relato/ partilha de experiências pedagógicas alternativas.
3.Divulgação de instrumentos e estratégias pedagógicas aplicadas nas aulas a partir da experiência com o modelo pedagógico do Movimento da escola Moderna.
4.Actividades de aplicação de conhecimentos.
segunda-feira, agosto 17, 2009
Estudar, pois...
«Um jovem lançar-se-á à difícil tarefa de estudar, se tiver, além de capacidade de sofrimento, motivação para isso. Motivação não significa que encontre gosto em estudar, mas que descubra motivos fortes para estudar: com gosto ou sem ele. Mesmo não lhe apetecendo estudar, sentar-se-á diante dos livros com a consciência de que há coisas bem mais importantes do que o seu apetite. Saberá que há um preço a pagar por todo o belo objectivo, e estará disposto a pagá-lo com alegria. Mas o objectivo tem mesmo de ser grande e belo. Verdadeiro e profundo. Do tamanho da alma humana.»
(Paulo Geraldo)
(Paulo Geraldo)
Responsabilidade e esforço
«Mas sucede que a responsabilidade não nasce senão depois de se ter cultivado cuidadosamente, demoradamente, a semente da responsabilidade. Passámos anos a fomentar no menino um estilo de vida irresponsável, e agora, de repente, exigimos-lhe que seja responsável? Passámos anos a apaparicá-lo, e agora queremos que seja maduro? Para ele ser maduro, teria sido necessário que tivesse vivido: que tivesse passado experiências diversas, que tivesse enfrentado obstáculos, que tivesse feito coisas sozinho, que tivesse errado e emendado depois os erros, que se tivesse aperfeiçoado à custa de esforço pessoal. E nós temos feito tudo para lhe evitar esses obstáculos, essas experiências e esse esforço.»
(Paulo Geraldo)
(Paulo Geraldo)
Esforço
«Os teus filhos, portanto, devem habituar-se desde pequenos a ajudar em casa, a prestar serviços na medida das suas capacidades. O lar, esse milagre quotidiano, deve ser também uma construção deles. Algumas vezes as tarefas que lhes deres exigir-lhes-ão um sacrifício custoso. Mas sem isso a casa não seria a sua casa: seria um lugar vazio, a pensão onde teriam de ir dormir e comer durante mais algum tempo, exigindo que os servissem sem falhas. Assim, porém, sentir-se-ão responsáveis por aquilo que foi também obra sua. Acabarão descobrindo por si mesmos as tarefas que é preciso realizar. Olharão para a casa, para os pais, para os irmãos com os olhos perspicazes do amor.»
«É claro que, quando chega a altura em que precisa mesmo de estudar, porque as matérias se tornaram mais difíceis, não é capaz de o fazer. Pois é natural que - não tendo sido habituado ao esforço de fazer a cama, de ir a pé para a escola, de pôr a mesa... - não seja capaz do esforço de estudar, que é maior do que os outros. É escusado levar o menino ao psicólogo. É escusado pensarmos que o problema está em que não sabe estudar, em que desconhece as técnicas de estudo. O problema dele são... os pais. Exactamente. Seremos capazes de mudar?»
«É realmente monstruoso que o trabalho infantil seja explorado. Ficamos chocados com isso, e fazemos muito bem, pois qualquer género de exploração é odiosa. Mas o trabalho durante a juventude é coisa útil e necessária. É a trabalhar que se aprende a trabalhar. É na juventude que se devem adquirir as capacidades - de esforço, de persistência, de concentração... - que o trabalho exige. O trabalho, com a medida adequada às características e à idade de cada um, edifica o homem. Molda-lhe as virtudes, o carácter e os músculos.»
«Este país está a encher-se de jovens que beberam a escolaridade obrigatória até à última gota e que agora não sabem fazer... nada. Vemo-los hoje frequentar todo o género de casas nocturnas com o dinheiro dos pais. Amanhã, como não aprenderam a trabalhar, terão de tentar sobreviver à custa de adaptações ou de truques, talvez não muito de acordo com a lei ou com os bons costumes.»
(Paulo Geraldo)
«É claro que, quando chega a altura em que precisa mesmo de estudar, porque as matérias se tornaram mais difíceis, não é capaz de o fazer. Pois é natural que - não tendo sido habituado ao esforço de fazer a cama, de ir a pé para a escola, de pôr a mesa... - não seja capaz do esforço de estudar, que é maior do que os outros. É escusado levar o menino ao psicólogo. É escusado pensarmos que o problema está em que não sabe estudar, em que desconhece as técnicas de estudo. O problema dele são... os pais. Exactamente. Seremos capazes de mudar?»
«É realmente monstruoso que o trabalho infantil seja explorado. Ficamos chocados com isso, e fazemos muito bem, pois qualquer género de exploração é odiosa. Mas o trabalho durante a juventude é coisa útil e necessária. É a trabalhar que se aprende a trabalhar. É na juventude que se devem adquirir as capacidades - de esforço, de persistência, de concentração... - que o trabalho exige. O trabalho, com a medida adequada às características e à idade de cada um, edifica o homem. Molda-lhe as virtudes, o carácter e os músculos.»
«Este país está a encher-se de jovens que beberam a escolaridade obrigatória até à última gota e que agora não sabem fazer... nada. Vemo-los hoje frequentar todo o género de casas nocturnas com o dinheiro dos pais. Amanhã, como não aprenderam a trabalhar, terão de tentar sobreviver à custa de adaptações ou de truques, talvez não muito de acordo com a lei ou com os bons costumes.»
(Paulo Geraldo)
sábado, agosto 15, 2009
Vida ilusória na escola versus a dura realidade
image copyrightDepois de termos abordado o problema das ilusões que se criam na escola em Vida fácil na escola, chegou-me às mãos um texto de um aluno que confirma a análise.
O texto intitula-se «The Cops» e, no final, depois de expressar que não gosta de polícias, que são maus, violentos, entre outras coisas, conclui o seguinte: «If the cops were like some teachers, it would be much better.»
Este «se os polícias fossem como alguns professores, seria muito melhor» permite tirar conclusões claras, que prova a tal distância entre a vida na escola e a vida fora dela.
O estudante acha injusto se não o deixarmos fazer o que lhe apetece. Espera e pensa poder fazer lá fora o que faz dentro da escola. Espera e pensa obter a mesma brandura, complacência e falta de autoridade (impunidade) nos polícias que encontram na Escola e nos professsores.
Esperam que o mundo real seja como o ilusório mundo da escola, em que regras, disciplina e responsabilidade individual são altamente realtivizadas em nome da auto-estima (amor próprio) ou de um certo conceito de "inclusão" (manter os alunos dentro dos muros da escola).
O estudante chega à dura conclusão que o mundo real não é a escola, mas em vez de enfrentar a realidade refugia-se no mundo ilusório da escola: manifesta o desejo de que os polícias actuem como os professores. Pretende a mesma permissividade e complacência por parte das forças da ordem, do nosso Estado de Direito, que vive em meio escolar, em que muitas vezes não há consequências para os actos de transgressão que chocam com os direitos dos outros à sua volta.
quinta-feira, agosto 13, 2009
Novo paradigma de escola
CARREGAR O MUNDO ÀS COSTAS? NÃO OBRIGADO. Em lugar de andar a sonhar com ideais, mudanças de paradigma utópicas (baseadas na impossibilidade de criar um Homem Novo ou um Estudante Novo) e rupturas radicais, o meu intento ou desejo mais terreno é que se mude rapidamente do paradigma do facilitismo, do laxismo, da desresponsabilização, da atitude negativa perante o trabalho escolar e da complacência perante a indisciplina, para o paradigma da Responsabilidade, da Disciplina e do Trabalho na escola.image origin
Canso-me de ouvir teóricos sobre a educação, na forma como iludem premissas básicas e universais do processo de ensino-aprendizagem por parte do estudante (Trabalho, Disciplina e Responsabilidade) e apontam para o IDEAL, para uma mudança sonhada e radical de paradigma de escola, que sabem que não dá resposta aos problemas do momento presente nem do futuro próximo.
Pior do que isso, com um fundo claramente ideológico, procuram fazer passar a ideia de que esse novo paradigma de escola ou novos modelos pedagógicos como que dispensam, ou resolvem de forma espontânea, por arrastamento, a falta da disciplina, de trabalho e responsabilidade entre muitos estudantes na actualidade.
Muitos teóricos insistem nessa ideia do professor enquanto facilitador, orientador, organizador e criador das melhores condições possíveis para os estudantes desenvolverem a sua aprendizagem, mas depois atribuem ao professor, quando não depende só dele, a existência de disciplina, responsabilidade e trabalho nesses alunos.
Afinal, o professor tem de ser uma espécie de «faz tudo» ou «consegue tudo», um milagreiro, em que o seu carisma, liderança e sei lá o que mais tudo soluciona e resolve na sala de aula, mesmo perante os alunos mais indisciplinados, irresponsáveis ou aversos ao mais elementar empenho ou esforço.
Os teóricos ligados a uma certa esquerda evitam sempre o problema da indisciplina , da falta de responsabilidade e da atitude negativa dos alunos perante o trabalho escolar e relativizam o seu peso nos resultados escolares. Além disso, desresponsabilizam essa parte importante do processo de ensino-aprendizagem que são os estudantes e transferem a responsabilidade do sucesso ou insucesso escolar do aluno para o professor ou para a esfera social em geral. Muito cómodo.
Reiventar a roda, se isso é de alguma utilidade, pode ser um sonho belo, dar sentido a uma missão, pode ser uma utopia, um farol para uma caminhada, mas continuamos a perder de vista o essencial e os problemas prementes/reais que precisam de ser resolvidos de imediato, no quotidiano, como tentei alertar. Enquanto não chega o IDEAL, o novo paradigma, é preciso ir resolvendo as questões.
E não resolvemos muitos dos problemas no ensino continuando a dispensar o trabalho, a disciplina e a responsabilidade dos estudantes na escola, valores fundamentais em qualquer época, regime político, sociedade, cultura ou paradigma pedagógico/escolar.
São valores universais e basilares. Não existe nem existirá um novo paradigma de escola (por mais que se tente encontar sentido em reiventar a roda) que tenha sucesso sem esses valores fundamentais. Tem a ver com o fundamental da natureza humana.
Sei que é mais fácil e cómodo desviar o olhar para o longo prazo, esperar um acto messiânico ou acreditar que um modelo pedagógico, um modelo de avaliação, um modelo de sociedade, um regime político, um modelo IDEAL qualquer faça o milagre. Nunca se aprenderá, substancialmente, sem trabalho, sem disciplina, sem responsabilidade.
Antes de mudar o mundo ou criar um Homem Novo (e com ele a sociedade perfeita...), precisamos de, na escola, mudar urgentemente, neste tempo presente, do paradigma do facilitismo, do laxismo, da desresponsabilização, da atitude negativa perante o trabalho escolar e da indisciplina para o paradigma da Responsabilidade, da Disciplina e do Trabalho na escola.
Alguns teóricos da educação fazem lembrar um grupo de barbudos que, no PREC, queriam fundar o Homem Novo. Há quem pense que se pode fundar a Escola Nova, deitando abaixo a escola que existe e construindo de um momento a outro essa escola nova.
Enquanto não chega o IDEAL é preciso resolver os problemas terrenos e concretos com que lidamos todos os dias nas escolas, da forma mais directa, objectiva e realista possível. É incómodo mas é necessário.
Se não somos capazes de actuar e procurar minimizar desde já os problemas reais e evidentes que enfrentamos neste momento, nunca seremos capazes de mudar de paradigma de Escola no médio ou longo prazo, que é uma tarefa tremenda, levará imenso tempo e será muito lenta, porque o corte radical com o actual paradigma, excepto em casos isolados e em contextos especiais, nunca acontecerá com sucesso. A mudança será sempre progressiva.
domingo, agosto 09, 2009
Intransigir com a bandalheira
Renovar em Educação significa ter uma intransigência grande com a bandalheira ou a balbúrdia(facilistismo e laxismo) instaladas na escola pública, embora fruto de uma cultura social mais vasta - mas encarada e assumida como se fosse a coisa mais natural do mundo -, que se preocupa mais com a auto-estima (amor, falsa inclusão e ilusões) dos estudantes do que com os seus conhecimentos e competências efectivas.A trilogia Trabalho, Responsabilidade e Disciplina são incontornáveis, independentemente do regime político do país, da cultura da sociedade ou da corrente/modelo didáctico-pedagógico em prática. Quem escamoteia esta base estruturante de valores na Educação e na Escola presta um péssimo serviço à Educação e à Escola.
sexta-feira, julho 17, 2009
«A balbúrdia na escola»
António Barreto considera que a principal inspiração do actual Estatuto do Aluno é a desconfiança dos professores. O documento oscila «entre a burocracia, a teoria integradora das ciências de educação, a ideia de que existe uma democracia na sala de aula e a convicção de que a disciplina é um mal.»António Barreto, no Público (30 de Março de 2008), sob o título «A balbúrdia na escola», mostra que sabe do que fala. Como professor, subscrevo aquilo que já pensava sobre o Estatuto do Aluno aprovado pelo actual governo, que foi mais um passo no sentido do laxismo e facilitismo estudantil e da impossibilidade de haver autoridade, disciplina (consequência) e responsabilização nas escolas. Sem essas condições, não há trabalho, não há aprendizagens sugnificativas, não há melhores resultados.
Passemos ao texto:
«Os direitos dos alunos, consagrados no respectivo estatuto, são os mais abrangentes e absurdos que se possa imaginar.
As cenas de pancadaria na escola têm comovido a opinião. A última ocorreu numa escola do Porto e foi devidamente filmada por um colega. Em poucas horas, o clip correu mundo através do YouTube. A partir daí, choveram as análises e os comentários. Toda a gente procura responsáveis, culpados e causas. Os arguidos são tantos quanto se possa imaginar: os jovens, os professores, os pais, o ministério e os políticos. E a sociedade em geral, evidentemente.
As causas são também as mais diversas: a democracia, os costumes contemporâneos, a cultura jovem, o dinheiro, a televisão, a publicidade, a Internet, a permissividade, a falta de valores, os "bairros", o rap, os imigrantes, a droga e o sexo. Para a oposição, a culpa é do Governo. Para o Governo, a culpa é do Governo anterior. O trivial
Deve haver um pouco disso tudo, o que torna as coisas mais complicadas - sobretudo quando se pretende tomar medidas ou conter a vaga crescente de violência e balbúrdia. Se as causas são múltiplas, por onde começar? Mais repressão? Mais diálogo? Mais disciplina? Mais co-gestão? Há aqui matéria para a criação de várias comissões, a elaboração de um livro branco, a aprovação de novas leis e a realização de inúmeros estudos. Até às eleições, haverá debates parlamentares sobre o tema. Não tenho a certeza, nem sequer a esperança, que o problema se resolva a breve prazo.
De qualquer maneira, a ocasião era calhada para voltar a ver a obra-prima do esforço legislativo nacional, o famoso "estatuto do aluno". A sua última versão entrou em vigor em finais de Janeiro, sendo uma correcção de outro diploma, da mesma natureza, de 2002. Trata-se de uma espécie de carta constitucional de direitos e deveres, a que não falta um regulamento disciplinar. Não se pode dizer que fecha a abóbada do edifício legal educativo, porque simplesmente tal edifício não existe. É mais um produto da enxurrada permanente de leis, normas e regras que se abate sobre as escolas e a sociedade.
É um dos mais monstruosos documentos jamais produzidos pela administração pública portuguesa. Mal escrito, por vezes incompreensível, repete-se na afirmação de virtudes. Faz afirmações absolutamente disparatadas, como, por exemplo, quando considera que "a assiduidade (...) implica uma atitude de empenho intelectual e comportamental adequada..."! Cria deveres inéditos aos alunos, tais como o de se "empenhar na sua formação integral"; o de "guardar lealdade para com todos os membros da comunidade educativa"; ou o de "contribuir para a harmonia da convivência escolar". E também os obriga a conhecer e cumprir este "estatuto do aluno", naquele que deve ser o pior castigo de todos!
Quanto aos direitos dos alunos, são os mais abrangentes e absurdos que se possa imaginar, incluindo os de participar na elaboração de regulamentos e na gestão e administração da escola, assim como de serem informados sobre os critérios da avaliação, os objectivos dos programas, dos cursos e das disciplinas, o modo de organização do plano de estudos, a matrícula, o abono de família e tudo o que seja possível inventar, incluindo as normas de segurança dos equipamentos e os planos de emergência!
Trata-se de um estatuto burocrático, processual e confuso. O regime de faltas, que decreta, é infernal. Ninguém, normalmente constituído, o pode perceber ou aplicar. Os alunos que ultrapassem o número de faltas permitido podem recuperar tudo com uma prova. As faltas justificadas podem passar a injustificadas e vice-versa. As decisões sobre as faltas dos alunos e o seu comportamento sobem e descem do professor ao director de turma, deste ao conselho de turma, destes à direcção da escola e eventualmente ao conselho pedagógico.
As decisões disciplinares são longas, morosas e processualmente complicadas, podendo sempre ser alteradas pelos sistemas de recurso ou de vaivém entre instâncias escolares. Concebem-se duas espécies de medidas disciplinares, as "correctivas" e as "sancionatórias". Por vezes, as diferenças são imperceptíveis. Mas a sua aplicação, em respeito pelas normas processuais, torna inútil qualquer esforço.
As medidas disciplinares são quase todas precedidas ou acompanhadas de processos complicados, verdadeiros dissuasores de todo o esforço disciplinar. As medidas disciplinares dependem de várias instâncias, do professor aos órgãos da turma, destes aos vários órgãos da escola e desta às direcções regionais. Os procedimentos disciplinares são relativos ao que tradicionalmente se designa por mau comportamento, perturbação de aula, agressão, roubo ou destruição de material, isto é, o dia-a-dia na escola. Mas a sua sanção é de tal modo complexa que deixará simplesmente de haver disciplina ou sanção.
O estatuto cria um regime disciplinar em tudo semelhante ao que vigora, por exemplo, para a administração pública ou para as relações entre administração e cidadãos. Pior ainda, é criado um regime disciplinar e sancionatório decalcado sobre os sistemas e os processos judiciais. Os autores deste estatuto revelam uma total e absoluta ignorância do que se passa nas escolas, do que são as escolas. Oscilando entre a burocracia, a teoria integradora das ciências de educação, a ideia de que existe uma democracia na sala de aula e a convicção de que a disciplina é um mal, os legisladores do ministério (deste ministério e dos anteriores) produziram uma monstruosidade: senil na concepção burocrática, administrativa e judicial; adolescente na ideologia; infantil na ambição.
O estatuto não é a causa dos males educativos, até porque nem sequer está em vigor na maior parte das escolas. Também não é por causa do estatuto que há, ou não há, pancadaria nas escolas. O estatuto é a consequência de uma longa caminhada e será, de futuro, o responsável imediato pela impossibilidade de administrar a disciplina nas escolas. O estatuto não retira a autoridade na escola (aos professores, aos directores, aos conselhos escolares). Não! Apenas confirma o facto de já não a terem e de assim perderem as veleidades de voltar a ter.
O processo educativo, essencialmente humano e pessoal, é transformado num processo "científico", "técnico", desumanizado, burocrático e administrativo que dissolve a autoridade e esbate as responsabilidades. Se for lido com atenção, este estatuto revela que a sua principal inspiração é a desconfiança dos professores. Quem fez este estatuto tinha uma única ideia na cabeça: é preciso defender os alunos dos professores que os podem agredir e oprimir. Mesmo que nada resolva, a sua revogação é um gesto de saúde mental pública.»
quarta-feira, julho 08, 2009
«Esforço e estudo», receita a ministra
Já não era sem tempo a ministra da Educação reconhecer a centralidade do esforço e do trabalho dos alunos para a obtenção de bons resultados escolares. Por vezes, é difícil de ver o óbvio e resistir ao mais fácil: culpabilizar os professores de tudo, até da atitude negativa generalizada dos estudantes perante o trabalho (escolar) na escola pública.photo origin
Elogio hoje o sentido de realidade e bom senso da ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, na sequência de uma intervenção no telejornal das 13h na RTP1.
«Não há melhoria escolar sem mais esforço e mais estudo» dos estudantes, disse a ministra a propósito dos resultados dos exames nacionais hoje publicados. Mais adiante, insistiu: «os resultados escolares são sempre explicados por mais trabalho e mais estudo.»
Aleluia. Finalmente, o bom senso começa a imperar e responsabilizam-se os estudantes pelo peso do seu trabalho nos resultados escolares. Trabalho, Responsabilidade e Disciplina são valores, a nosso ver, estruturantes do sucesso de qualquer estudante na escola e de qualquer pessoa na vida.
Todavia, o discurso de Maria de Lurdes Rodrigues tem de ser mais coerente com a prática governativa, que tem sido laxista e facilitista relativamente ao papel dos estudantes no processo de aprendizagem e nos seus resultados escolares, nomeadamente quanto aos sinais dados pelo estatuto do aluno, mas que tem sido de mão dura para os professores, transformados em bodes-expiatórios de todos os males do sistema de ensino, ainda por cima acentuando a desautorização/desvalorização pública dos docentes.
De qualquer modo, saudamos a posição da ministra (esperamos não ser algo meramente circunstancial), que vai ao encontro de muita coisa que por aqui temos escrito nos últimos anos e, especifiamente, do que escrevemos há poucos dias:
«A complacência e a não exigência de esforço, trabalho, responsabilidade e disciplina nunca fará evoluir o estudante desmotivado, com menor cultura/apetência para o estudo, e nunca será sinónimo de escola inclusiva. Ter os alunos dentro dos muros da escola não significa, necessariamente, inclusão, se estiverem excluídos da aprendizagem, do saber, das competências que precisam para a vida e que a sociedade actual exige. Se estiverem excluídos dos valores da disciplina, do rigor, do trabalho e da responsabilidade estarão excluídos da vida real.»
E concluímos: «Em vez de se tentar reinventar a roda, aquilo que é óbvio e já existe, coloquemos as pessoas a trabalhar nas escolas para aprenderem mais e melhor. Além disso, claro, apliquem-se modelos de diferenciação pedagógica, prestem-se apoios, valorize-se a singularidade, mas NUNCA se dispense o trabalho, a disciplina e a responsabilidade do estudante no seu próprio percurso escolar, porque esses valores são os alicerces do seu progresso e sucesso. Não há modelo de organização pedagógica que dispense essas pressimas/valores no estudante.»
O tempo acabará por reconhecer a razão, mas até lá e, sobretudo, até a consciência dos problemas se traduzir em mudança no terreno, continuam os docentes a sofrer as pressões da indisciplina, da irresponsabilidade e da atitude negativa dos estudantes perante o trabalho escolar, bem como a serem culpabilizados pelos resultados escolares que não podem surgir apenas do trabalho do professor.
terça-feira, junho 30, 2009
Roda já está inventada
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João Formosinho deu uma entrevista ao Jornal da Madeira (29.6.2009) e levanta algumas questões importantes.
Destacamos esta frase, pela sua centralidade: «Não podemos viver [na escola] num oásis à parte em que todos nós somos iguais e carinhosos uns com uns outros porque sabemos que a sociedade [isto é, a realidade] não é assim».
Saudamos este pragmatismo deste professor catedrático do Departamento de Ciências da Educação da Criança do Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho. Apesar de a escola pública ter de atender e dar resposta aos vários públicos estudantis, com diferentes pontos de partida, culturas, interesses, objectivos e ritmos de aprendizagem (em que o professor tem tanto de avaliar o progresso dos estudantes como seleccionar os melhores), uma coisa é certa:
NÃO pode haver qualquer cedência no que toca à atitude dos estudantes perante o trabalho escolar, à exigência de empenho e disciplina para que se criem condições básicas para o bom decorrer do processo de ensino-aprendizagem.
Ser um estudante desfavorecido social e culturalmente ou ter problemas emocionais deve dar direito aos apoios possíveis, na escola e fora dela, para que se minimizem as inadaptações desses estudantes à cultura escolar e se compense o facto de partirem mais tarde ou mais detrás do que outros estudantes, nomeadamente aqueles oriundos das classes médias e médias-altas.
Ser um estudante desfavorecido social e culturalmente ou ter problemas emocionais NÃO deve nem pode dar direito à atitude negativa perante o trabalho escolar, à indisciplina, à irresponsabilidade, ao laxismo e ao facilitismo.
Bem pelo contrário, a complacência e a não exigência de esforço, trabalho, responsabilidade e disciplina nunca fará evoluir o estudante desmotivado, com menor cultura/apetência para o estudo, e nunca será sinónimo de escola inclusiva. Ter os alunos dentro dos muros da escola não significa, necessariamente, inclusão, se estiverem excluídos da aprendizagem, do saber, das competências que precisam para a vida e que a sociedade actual exige. Se estiverem excluídos dos valores da disciplina, do rigor, do trabalho e da responsabilidade estarão excluídos da vida real.
A escola de massas e para todos não tem de significar a decadência da qualidade da escola, o que seria uma contradição com aquilo que o tempo actual exige. Há um conhecimento geral e básico que todos devem ter, ponto final. Ser pobre não é impedimento para a criança e jovem ser disciplinado, responsável e empenhado (trabalhador) na escola.
O resultado é que, desde às classes sociais mais desfavorecidas às mais altas, embora por razões diferentes, estão todos descontentes com a escola pública. O laxismo e o facilitismo falsamente inclusivo e integrador não serve a ninguém.
Os modelos de organização, de avaliação, de ensino, os currículos, entre outros aspectos, podem ser alterados, mas nada disso assegura que quem não queira aprender, seja indisciplinado e tenha uma má atitude perante o trabalho escolar aprenda algo de válido.
Em vez de se tentar reinventar a roda, aquilo que é óbvio e já existe, coloquemos as pessoas a trabalhar nas escolas para aprenderem mais e melhor. Além disso, claro, apliquem-se modelos de diferenciação pedagógica, prestem-se apoios, valorize-se a singularidade, mas NUNCA se dispense o trabalho, a disciplina e a responsabilidade do estudante no seu próprio percurso escolar, porque esses valores são os alicerces do seu progresso e sucesso. Não há modelo de organização pedagógica que dispense essas pressimas/valores no estudante.
Os três motivadores que existem é o interesse (amor), esperança e medo. Quando o estudante não gosta da disciplina, não tem esperança ou perspectiva que isso lhe traga algo de bom no futuro, resta o medo. Daí que transformem os professores em polícias (medo) na sala de aula. Entretanto, aprende-se pouco e mal. É o deixa andar até à implosão.
quinta-feira, junho 25, 2009
Vida fácil na escola e regras de vida para estudantes
Apesar dos alertas racionais e realistas, na forma da mais simples evidência, o FAZ DE CONTA no sistema de ensino continua na maior das descontracções... Olha-se para o lado para não termos a maçada de tomar as medidas (impopulares...) necessárias e limitamo-nos a criar ilusões.photo origin
No livro Dumbing Down our Kids da autoria de Charles Sykes, editado nos anos 90, surge uma lista de regras que os estudantes não aprendem nas escolas. (Estas regras são muitas vezes, erradamente, atribuídas a Bill Gates.)
O mesmo autor tem outro livro em que expande essas regras que a escola do "tá-se bem" e do irrealismo deixou de ensinar aos estudantes: 50 Rules Kids Won't Learn In School («taking on the education system's "modern bubble-wrap mentality" of "no losing, no disappointments, no harsh reality checks," Sykes takes a hard-line but humorous approach to instilling the discipline, morals and good sense that keep kids from becoming "sulky, self-centered, spoiled brats."»)
O ensino facilitista e politicamente correcto, orientado mais para a auto-estima do estudante (amor próprio: nem estamos a falar de auto-confiança; a auto-estima é baseada em nada, não tem sustentação, enquanto a auto-confiança é baseada nalguma coisa) do que para a aprendizagem efectiva, criou uma geração de estudantes sem noção da realidade, fazendo com que falhem na vida posterior à escola.
Os jovens são vistos como sendo tão frágeis que precisam estar isolados da realidade, dos problemas, dos desafios, dos desapontamentos, das suas frustrações, das suas limitações e insuficiências. Daí que o que importa é o estudante ter um ego insuflado, esteja centrado em si próprio e se ame a si mesmo acima de tudo.
Curioso que toda a gente reconhece razão ao autor, mas não se consegue transpor tal clarividência para o concreto. As escolas estão transformadas em locais de faz de conta, de laxismo, de facilitismo, uma espécie de limbo separado da realidade, em que os jovens não assumem as suas responsabilidades enquanto estudantes nem reagem às dificuldades. Parece que o Ocidente enveredou, de uma forma geral, por educar as novas gerações nesta alienação da realidade e insuflá-los de "auto-estima" Em Portugal, o faz de conta e o laxismo atinge valores alarmantes.
Antes da recente crise dos mercados financeiros toda a gente fazia de conta que estava tudo bem e que o falso bem-estar económico e social, fruto da especulação, iria durar para sempre. Os que vaticinavam a crise foram alvo de chacota e ridicularizados. A escola no Ocidente também desvia o olhar para não ver a realidade, mas mais tarde ou mais cedo vamos ser confrontados com essa mesma realidade.
Há hoje uma cultura geral sobre a educação tão impregnada nas sociedades ocidentais (sobretudo nos professores, depois das lavagens ideológicas que sofreram na formação inicial ...) que quem diz que o rei vai nu é logo visto como louco. Há mesmo cidadãos política e ideologicamente bem de direita que defendem, na educação, as maiores balelas esquerdistas que dão corpo a muito do laxismo/facilitismo actual nas escolas públicas.
Transcrevemos então 11 dessas regras de Charles Sykes (pode ouvir entrevista ao autor), traduzidas em português:
1
A vida não é fácil, acostuma-te a isso.
2
O mundo não está preocupado com a tua auto-estima. O mundo espera que tu faças alguma coisa útil por ele ANTES de te sentires bem contigo mesmo.
3
Não ganharás 40 mil euros por ano assim que saíres da escola. Não serás vice-presidente de uma empresa com carro e telefone à disposição antes que tenhas conseguido comprar o teu próprio carro e telefone.
4
Se achas o teu professor rude, espera até teres um Chefe. Ele não terá pena de ti.
5
Fritar hamburgers num restaurante não está abaixo da tua posição social. Os teus avós têm uma palavra diferente para isso: eles chamam-lhe oportunidade.
6
Se fracassares, não é culpa dos teus pais. Então não lamentes os teus erros, aprende com eles.
7
Antes de nasceres, os teus pais não eram tão críticos ou chatos como agora. Eles só ficaram assim por pagar as tuas contas, lavar as tuas roupas e ouvir-te dizer quanto és porreiro. Então antes de salvares o planeta para a próxima geração, querendo consertar os erros da geração dos teus pais, tenta limpar o teu próprio quarto.
8
A tua escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim. Em algumas escolas já não repetes o ano e tens quantas hipóteses precisares até acertar. Isto não se parece com absolutamente NADA com a vida real.
9
A vida não é dividida em semestres. Não terás sempre os verões livres e é pouco provável que outros empregados te ajudem a cumprir as tuas tarefas no fim de cada período.
10
A televisão NÃO é a vida real. Na vida real, as pessoas têm que deixar o bar ou a discoteca para ir trabalhar.
11
Sê simpático com aqueles estudantes que os demais julgam que são uns marrões. Existe uma grande probabilidade de vires a trabalhar PARA um deles.
segunda-feira, junho 15, 2009
«Zona de esforço não negociável»
image copyright«Há uma fase inicial de preparação, que tem a ver com disciplina, com esforço, valores que se confundiram. Durante décadas a escola foi sendo esvaziada da disciplina e do método. Os meninos têm que estar muito contentes na escola, têm que estar sempre divertidos. Isto é um erro, não estou a fazer a apologia da reguada, mas estou a dizer que há aqui uma zona de esforço que não é negociável. As pessoas têm que desenvolver recursos internos, construir o seu património. Quem tem esse património interpreta a realidade de outra forma, defende-se melhor, antecipa melhor as situações, consegue imaginar melhor, arranja mais depressa solução para situações de impasse, arranja maneira de sair. A utilidade, a aplicação prática - que é uma obsessão contemporânea - é incomensurável.»
[Paula Moura Pinheiro (Câmara Clara - RTP2): Revista Diário (14.06.2009)]
Será que é assim tão difícil perceber coisas tão simples? No sistema educativo parece que as verdades simples e evidentes se tornaram indecifráveis. O facilitismo e o laxismo são lei, são uma mentalidade que tudo domina e impõe.
E saem alunos da escola pública, que se diz inclusiva (basicamente no sentido que mantém os alunos dentro das paredes da escola, todos «divertidos», mesmo que aprendam pouco ou nada enquanto lá estão, não importa: assegura-se acesso mas não o conhecimento e o sucesso), sem o «património» de que fala Paula Moura Pinheiro, que não é mais do que competências e ferramentas (estas, sim, inclusivas) para a vida.
A escola que não lhes dá esse património, mesmo que os alunos sejam diplomados, está a criar exclusão, isto é, a fazer com que esses estudantes/cidadãos abracem a exclusão pela vida fora.
A maioria dos estudantes tem na escola pública a única hipótese de mobilidade social (de ser alguém na vida e sair do buraco onde nasceram). Se é tudo feito a brincar, com a indisciplina e a ausência de esforço generalizados, estamos a criar exclusão e a cercear futuros na escola.
Na escola, actualmente, não só a tal «zona de esforço» é negociável, como está tudo montado de cima a baixo para não haver esforço. Nem esforço, nem disciplina, nem muita outra coisa. Está-se a criar exclusão intelectual (do saber), mesmo que mantenha os estudantes na escola (inclusão física).
Oh que raio. Ninguém vê o evidente? Ninguém quer ver o evidente? Os partidos políticos que andam a propor medidas para aprofundar o laxismo e o facilitismo (exclusão social) na escola pública não poderiam fazer o favor de falar verdade?
A propósito:
40: Responsabilizar outros actores e não só os docentes
39: Professor bode expiatório
38: Bandalheira instalada na pública favorece a privada
37: Défice de atenção e insucesso escolar
36: Demasiado tempo (não rentabilizado) na escola
35: De utopia em utopia até ao laxismo total III
31: Responsabilizar os estudantes pelo seu desempenho
30: Onde falhamos nós no público
29: Regras e responsabilização das crianças
28: Inflacção de notas
27: Responsabilização
26: Inconformismos
25: Enfrentar a realidade antes que ela nos engula
24: Laxismo e facilitismo significam exclusão social
23: Leste arrasa postura desculpabilizante
22: valores do Trabalho e da Responsabilidade moribundos na escola
21: Intervir contra a indisciplina III
20: Intervir contra a indisciplina II
19: Intervir contra a indisciplina I
15: Violência (des)camuflada IV
13: violência camuflada III
12: violência camuflada II
11: Racionalidade e realismo precisam-se
10: educação infantil em Portugal (Eduardo Lourenço)
9: nem ditadura por disciplina nem a ditadura da indisciplina
7: violência camuflada I
1: condições de trabalho
Outros:
Complexos de esquerda = facilistismo
Laxismo pós 25 de Abril trama Educação
Escola ideal é diferente da escola real
Brincamos mesmo
País de brincalhões
Fomentos da indisciplina [quando o exemplo nem vem de cima]
Saber desvalorizado em Portugal
Paula Moura Pinheiro, ao Diário, refere que é «lamentável que o saber não seja mais valorizado.» É o que se sente nas escolas. Nem valorização do saber, nem valorização de valores como o esforço ou a disciplina.«Há uns anos entrevistei uma dupla de tradutores de russo que contaram que, nos últimos anos da União Soviética, subornavam-se polícias com livros», o que seria impensável no nosso país, em que seria encarado como algo ofensivo.
«Sabemos que em Cuba não há sabonete, mas o nível de literacia e número de escritores cubanos interessantes são incríveis», afirma a apresentadora do Câmara Clara. Isto é, Cuba vive sob uma ditadura de esquerda, mas o conhecimento é valorizado. Um exemplo, no que toca à atitude perante o saber, para uma certa esquerda e uma certa direita.
Paula Moura Pinheiro pinta o quadro em que nos movemos em Portugal:
«Temos uma longa história de iliteracia que nos distingue pela negativa dos restantes países europeus.
Há 40 anos ler era entendido pela maioria das pessoas como algo ocioso e inútil. Há imensas passagens na literatura portuguesa, no século XIX, em que se fazem piadas sobre isso. O Eça, o Camilo brincaram com essa desconfiança estrutural que este povo muito iletrado tem com tudo o que seja actividade intelectual, cujo resultado prático não se vê imediatamente. Este foi o sentimento dominante durante décadas.
As novas investigações em neurologia deixam claro que o cérebro de um leitor é diferente de um cérebro de um não leitor. Tem mais ligações nervosas, está desenvolvido de outra maneira. Portanto, quando falo de leitura é porque tem um impacto maior do que as pessoas imaginam. O efeito que isto tem nas pessoas é muito mais fundo. Se me pergunta se as pessoas aceitam que é importante saber pensar? Claro que não. Por isso é que nós tentamos tornar atraente algo a que as pessoas resistem.»
sexta-feira, junho 12, 2009
Nova presidente do CNE responsabiliza outros actores e não só os docentes
Ana Maria Bettentourt defende tolerância zero para a indisciplina nas escolas e mais trabalho e reponsabilidade por parte do estudante.photo copyright
Na tomada de posse, em 20 de Maio último, a nova presidente do Conselho Nacional de Educação, Ana Maria Bettencourt, disse algumas coisas importantes no seu discurso de tomada de posse, que vão no sentido de não responsabilizar apenas ou sobretudo os professores pelos resultados do sistema de ensino:
«É necessário que haja uma melhoria visível das aprendizagens e dos resultados escolares. Isto pressupõe uma responsabilidade social alargada, que inclui, designadamente, professores, escolas, famílias, autarquias, associações locais. Encontrar vias para a mobilização de todos, em torno dos desafios educativos é uma questão decisiva.
«Para que as crianças e os jovens aprendam mais, objectivo que todos defendemos, é importante que durante o seu dia na escola trabalhem mais e assumam responsavelmente o seu ofício de alunos.»
Este discurso de responsabilização dos vários actores sociais, entre eles as famílias e, especialmente, os estudantes, é um discurso anti-laxismo e anti-facilitismo.
Ana Maria Bettencourt, em entrevista ao Público, quando a jornalista refere «Mas os alunos não têm só problemas de aquisição de conhecimentos, mas de comportamento...», é categórica: «Aí deve haver tolerância zero.»
«O que proponho não é facilitismo, mas mais trabalho para os professores e para os alunos.» E referiu a propósito: «Um dos aspectos que me impressionou na escola finlandesa foi os alunos trabalharem imenso.»
Todavia, a protagonista escorrega quando diz que, «hoje em dia, temos mais capacidade para resolver problemas, mas para isso, os professores têm que trabalhar mais. Não podem ser só as famílias, embora estas sejam importantes; é a escola que tem que ter muito mais responsabilidade.»
Como se as famílias portuguesas, no geral, assumissem grandes responsabilidades pela atitude perante o trabalho escolar e o comportamento na sala de aula dos seus educandos...
Perante a realidade evidente, deveria antes dizer «não podem ser só os professores» a assumir as responsabilidades, que é o que se passa na actualidade de forma escandalosa, em que se coloca ainda sobre os docentes toda ou quase toda responsabilidade do sucesso escolar do aluno, mesmo que este não trabalhe ou não seja disciplinado na sala de aula. E sem conceder ao professor autoridade (este governo deu cabo dela) para educar a vontade da criança ou jovem no sentido do trabalho e da disciplina na sala de aula, para não comprometer ou sabotar o processo de ensino-aprendizagem, com prejuízo de todos os estudantes.
O blogue Profavaliação leu o discurso de Ana Maria Bettentourt de outra forma: Aqui. Embora a nova presidente do CNE utilize demasiado e sobretudo a palavra «mais» para os professores (ainda por cima quando lhes damos menos condições de trabalho, carreira e salário) há ideias que fazem todo o sentido.
Desde que as ideias sejam correctas e de bom senso, não me importa que o protagonista seja socialista, social-democrata, comunista, bloquista ou popular. O segredo é não estar capturado pela ideologia partidária e antes responder aos problemas e à realidade de forma eficaz e adequada.
quarta-feira, junho 10, 2009
Professor bode expiatório habitual
O actual governo de José Sócrates, com a campanha de afrontamento e desvalorização pública que fez desta classe profissional, contribuiu muito para acentuar esse estatuto de bodes expiatórios, que assumem a responsabilidades e insuficiências de terceiros, incluindo a responsabilidade das políticas educativas feitas pelos governos. O ataque empreendido aos professores é um mau serviço à sociedade e vamos levar anos a recuperar.
Pensa-se também que basta a pedagogia para o estudante ter sucesso. Não basta. O estudante tem peso e tem responsabilidade no seu percurso. É isso que deixou de acontecer, como ilustra o cartoon acima reproduzido.
Passou-se de um extremo para o outro. Em 2009, mesmo que o estudante seja indisciplinado, não tenha motivação intrínseca e tenha uma atitude negativa perante o trabalho escolar/intelectual, a culpa é sempre do professor, esse semi-deus que pode fazer um estudante ter sucesso escolar com as posturas atrás descritas.
Como se aprender fosse possível sem disciplina pessoal, sem concentração, sem empenho. Enquanto assim acontecer, o professor assumir as responsabilidades dos outros actores envolvidos no processo de ensino-aprendizagem e na educação, não vamos a sítio nenhum.
A pressão tem de voltar a estar também em cima dos alunos e das famílias. O laxismo e o facilistismo em que caiu a sociedade portuguesa afastam-na da tão desejada produtividade, que nos faça sair da cauda da Europa, onde desgraçadamente teimamos em permanecer. Sem rigor, sem trabalho, sem disciplina e sem as consequentes qualificações e competências nunca mais saíremos do pelotão dos últimos.
O sucesso de uma pessoa, incluindo a actividade enquanto estudante, depende sobretudo de si próprio. É uma verdade básica e simples, mas que se esquece. Pelo contrário, a ideia dominante que o sucesso escolar dos estudantes depende sobretudo do docente é um lirismo, uma utopia, desvalorizando-se a importância decisiva da atitude dos formandos perante o trabalho escolar e das suas atitudes pessoais e valores, na escola e salas de aula.
Nem nos utópicos regimes comunistas se acreditava que o sucesso dos indivíduos dependia sobretudo de terceiros. Os exigentes sistemas educativos não faziam o sucesso dos estudantes depender sobretudo do professor. Este contava com disciplina e trabalho por parte dos estudantes. Sem essas duas premissas o professor pode fazer o pino com um dedo que não faz milagres.
Como tive ocasião de ler recentemente, Escartí e Gutiérrez (2006) frisam que diversas investigações (Cecchini et al., 2004; Escartí y Gutiérrez, 2001; Ferrer-Caja y Weiss, 2000; Goudas y Biddle, 1994; Kavussanu y Roberts, 1996; Mitchell, 1996), no âmbito da Educação Física e desporto, revelaram que o tipo de motivação que leva os sujeitos a realizar mais esforço, apresentar maior perseverança e obter um maior grau de satisfação é a motivação intrínseca.
Não significa que o professor não tenha influência, não potencie determinadas qualidades nos estudantes, não possa cativar alguns alunos, mas não consegue fazer sucesso da inércia e da ausência de trabalho ou da indisciplina recorrente e insistente. Quando não existe o mínimo de predisposição face ao trabalho intelectual e ao civismo por parte do estudante é difícil o professor fazer milagres. Estes às vezes acontecem, mas é impossível generalizar milagres para todo o sistema educativo...
segunda-feira, junho 08, 2009
Bandalheira generalizada na pública apenas favorece a privada
«É preciso investir na educação dos filhos como fez a avó de Obama: meteu-o numa escola privada cara».João Vaz
Jornalista
Correio da Manhã
14.11.2008
Não é com o laxismo e o facilitismo que Portugal tem conhecido, por via das políticas pós-25 de Abril de 1974, que vamos deixar de ler frases como esta. Sucessivos governos, à direita e à esquerda, têm conseguido descredibilizar a escola do Estado.
Para uma certa esquerda e uma certa direita autoridade nas escolas é igual a autoritarismo. Neste momento, está tudo montado de cima a baixo para não haver disciplina, cultura de trabalho ou rigor nas escolas públicas.
«A disciplina deve ser um objectivo educacional, porque é a garantia da liberdade e da autonomia na sala de aula e no pátio da escola. Se deixarmos uma criança entregue a si mesma, é pouco provável que seja livre e disciplinada, mas também tenho a certeza de que, se não for feito algum trabalho de interiorização da disciplina, esta nunca surgirá de forma continuada», escreve Daniel Sampaio, na Pública de 31 de Maio de 2009.
Refere ainda aquele psiquiatra que se deve «assumir a disciplina como uma necessidade para a sala de aula» e que, «sem o exercício da disciplina por professores e alunos não haverá apreensão do saber nem produção de conhecimento». Isto é, ficam comprometidos os resultados escolares. Os resultados e a preparação das pessoas para a vida.
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domingo, junho 07, 2009
Demasiado tempo (não rentabilizado) na escola
A demasiada dispersão e o demasiado tempo passado na escola pelas crianças é um problema real. Maior problema do que esse é o tempo na escola não ser rentabilizado devido à atitude negativa dos estudantes perante o trabalho escolar, à má atitude cívica (indisciplina e violência) e ao pouco rigor no sistema (permissividade).photo copyright
«Excesso de trabalhos de casa prejudica a aquisição de conhecimento» e «crianças trabalham mais do que os adultos», lia-se no Correio da Manhã de 19.5.2009.
«Uma criança pequena em idade escolar trabalha, em média, nove horas por dia, o "exacto equivalente ao trabalho profissional de vida de um adulto", o que representa malefícios físicos, psicológicos e morais. A conclusão é da investigadora Maria José Araújo, do Centro de Investigação e Intervenção Educativas da Universidade do Porto. Para a especialista, os trabalhos de casa (TPC) "são inúteis no sentido de que só fazem apelo à memória e não ao conhecimento". Como tal, depois de trabalharem as cinco horas obrigatórias na escola, as crianças deveriam apenas brincar, que "é para elas também uma forma de adquirirem conhecimento".»
O Correio da Manhã ouviu ainda Albino Almeida, da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), que «defende que os TPC "exigem que os pais dêem aulas em casa, mas os professores não podem esquecer que há um conjunto de pais que têm muito baixas qualificações escolares e, portanto, não têm competência para ajudar".»
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