quarta-feira, janeiro 27, 2010

Disciplina em debate na Calheta

Debate sobre a disciplina como valor para a realização pessoal e profissional, na Escola Básica e Secundária da Calheta, entre as 14 e as 17h00 de hoje, 27 de Janeiro.

Depois da introdução feita por nós (ver aqui em slideshow), para desafiar os presentes para o debate com alguns factos e ideias estratégicas, o director regional de Educação, Rui Anacleto, salientou desde logo que a escola reflecte o que se passa na sociedade, mas não aceita a via do facilitismo («escola lúdica») porque a Região e o País precisam de pessoas qualificadas. Mencionou os prejuízos que a equipa ministerial anterior trouxe para a autoridade dos professores, culpabilizados de tudo o que estava mal na Educação.

O professor Valter Correia (ex-director da Escola B+S do Porto Moniz) definiu a indisciplina em sala de aula como tudo o que põe em causa o bom ambiente (a concentração) para o decorrer do processo de ensino-aprendizagem. Acentuou que a Educação é um assunto demasiado sério - enquanto pilar da democracia e garante da igualdade de oportunidades - para haver complacência face à indisciplina, numa actuação que deve ser sobretudo racional e pragmática.

Este orador referiu ainda que o acompanhamento da família é a base, o fundamental, tendo depois os alunos e os professores a sua parte de responsabilidade. A liderança dos professores em contexto pedagógico e das escolas foi realçado. Sugeriu mesmo mais formação para os docentes neste âmbito. Afirmou ainda que o aluno indisciplinado «não tem o direito de pôr em causa o direito dos outros à aprendizagem.» Para si, «consentir a indisciplina não ajuda o aluno.»

Outro orador, o Subcomissário da PSP Simão Freire, a propósito do peso da liderança do professor, fez notar que «não existe liderança sem autoridade: só se é líder quando há autoridade».

Tendo como referência a sua experiência no Colégio Militar, onde «não há mimos nem comodidades», salientou a importância da responsabilidade/responsabilização já que os «menores hoje não se sentem responsabilizados.» Falou dos valores morais/sociais que formam o carácter e de como o que define uma pessoa não é tanto a violação da regra mas sim a «forma como ela encara essa falha.» Porque são os valores que impedem de violar as regras e não a existência das regras em si. Quando não há valores pessoais que impeçam a indisciplina, a pessoa indisciplinada assume as consequências.

O seu lema é responsabilizar e não flexibilizar (muito menos ter uma atitude complacente e desculpabilizante, como também sublinhou Valter Correia, seja qual for a realidade social e cultural do aluno: «o aluno falhou, pagou», disse este professor).

O pároco Silvano Gonçalves, na sua intervenção, resumiu o problema desta forma: «a disciplina mais eficaz é preparar as pessoas para o sentido da importância do outro.» O problema, diríamos nós, é o ego desmedido de muitos indisciplinados que a última coisa que querem saber é precisamente do outro...

Marco Vasconcelos, atleta olímpico, deu conta da muita indisciplina também no desporto: a «cultura da disciplina perdeu-se.» E isso compromete os resultados desportivos. Sofia Canha, a moderadora, observou que o desporto é uma actividade para a qual os jovens têm maior predisposição, mas que mesmo assim não escapa à indisciplina... Agora imagine-se quando não há predisposição nenhuma para o trabalho intelectual/escolar os níveis que a indisciplina atinge...

A psicóloga Sara Silva referiu que os limites e hábitos desde que a criança nasce determinam a aquisição de competências sociais e auto-disciplina. Mais referiu que a disciplina exige uma acção sistémica, em que cada actor faz a sua parte, e que a liderança democrática é o modelo de liderança que melhor serve o meio escolar e familiar.

A este propósito Simão Freire referiu que o tipo de liderança deve adequar-se ao público que temos à nossa frente. Acrescentaríamos que o professor tem sempre vinte e tantos alunos à sua frente, que requerem diferentes estilos de liderança quase em simultâneo...

Indisciplina nas escolas, breve enquadramento

terça-feira, janeiro 26, 2010

Debate sobre disciplina na imprensa 2

Escola Básica e Secundária da Calheta, dia 27 de Janeiro, às 14h00.

Sobre o título «Há menos auto-disciplina», o Jornal da Madeira, em 23.01.2010, publicou a seguinte notícia:

«Há menos auto-disciplina nas pessoas. Há menos responsabilização das pessoas na sociedade em geral. Foram consequências, de certeza, da Revolução do 25 de Abril, que nos trouxe coisas fantásticas mas, neste aspecto, trouxe consequências negativas», afirma a docente Sofia Canha, da Escola Básica e Secundária da Calheta.
A afirmação vem a propósito de um debate que aquele estabelecimento de ensino vai promover no próximo dia 27, quarta-feira, pelas 14 horas.

A questão da disciplina, como base fundamental para a formação do indivíduo nas suas diversas facetas, vai ser abordada pelo actual presidente da Câmara Municipal do Porto Moniz (ex-Presidente do Conselho Executivo da EBS Porto Moniz), pelo Padre Silvano Gonçalves, pelo Sub-comissário Simão Freire, pelo atleta olímpico Marco Vasconcelos e pela psicóloga Sara Silva.

Sofia Cunha, docente na Escola Básica e Secundária da Calheta alerta que há jovens muito responsáveis. A questão é que «perdeu-se de facto a noção da responsabilidade individual, usamos com mais leveza o assumir das responsabilidades e isso vai reflectir-se a todos os níveis», diz.

Para esta professora, «se isto não for treinado num jovem em formação, quando este for adulto será também indisciplinado. Isso vai reflectir-se nos serviços que o mesmo vai cumprir no seu local de trabalho».

Sofia Canha refere, contudo, que com isto não quer dizer que a educação tenha de ser feita como regime militar.- O que é preciso é «incutir a disciplina e fazer que não sejam os terceiros, os responsáveis», disse.

Recorde-se:
Disciplina, um pilar para a realização pessoal e profissional

Debate sobre disciplina na imprensa 1

Diário, 23.01.2010.

Recorde-se:
Disciplina, um pilar para a realização pessoal e profissional.

domingo, janeiro 17, 2010

Disciplina: um pilar para a realização pessoal e profissional

Um debate com os agentes educativos dia 27 de Janeiro de 2010 (14h00) na sala de sessões da Escola Básica e Secundária da Calheta.
photo (c)

A disciplina é uma base fundamental para a formação do indivíduo nas suas diversas facetas. Um dos factores determinantes para o insucesso escolar e profissional é a falta de disciplina ou de auto-disciplina, sendo por isso pertinente debatermos esta questão sem preconceitos e envolvendo os principais agentes educativos do concelho.

Intervenientes:

Marco Vasconcelos (Atleta olímpico)
Silvano Gonçalves (Pároco da freguesia da Calheta)
Simão Freire (Sub-comissário da PSP)
Sara Silva (Psicóloga)
Valter Correia (ex-Presidente do Conselho Executivo da EBS do Porto Moniz)

Moderadores:

Sofia Canha e Nélio de Sousa (Docentes da Escola Básica e Secundária da Calheta)

Uma iniciativa:

Escola “a duas velocidades” é escola de “velocidade nenhuma”

A crise da escola portuguesa não se resolve com a assinatura do recente acordo de princípios entre os sindicatos e o Ministério da Educação. Está para além da carreira, avaliação do desempenho e salários.
photo origin

Não concordo que a escola se concentre na dimensão social (lhe dê prioridade) ao ponto de conceder menor atenção e, pior ainda, negligenciar a aprendizagem.

Perante a escola “a duas velocidades” (com vocações diferentes), a social de acolhimento e a da aprendizagem, como coloca António Nóvoa (Professores, Imagens do futuro presente – disponível online, com destaque para o capítulo "Educação 2021"), a prioridade deve ser dada à aprendizagem.

Na sociedade actual o «pior que podemos fazer às crianças, sobretudo às crianças dos meios mais pobres, é deixá-las sair da escola sem uma verdadeira aprendizagem», defende aquele autor. Isto é, gerar futuros excluídos da vida. Sob a capa de um falso igualitarismo e inclusão balofa, «aniquilam a única oportunidade que os filhos dos pobres têm de sair do buraco onde nasceram», escreveu Maria Filomena Mónica.

A “inclusão” actual resume-se a ter os estudantes dentro dos muros da escola. O laxismo e o facilitismo em que caiu a escola social de acolhimento (também escola lúdica e sala-de-estar...) significa, na prática, promoção da exclusão social para a vida activa.

O acolhimento, apoio social e integração de todos na escola, que defendo, não deve nem tem de implicar a desvalorização da cultura escolar e do processo de ensino-aprendizagem, nem a perda de valores universais de qualquer época. Nem tem de implicar um regresso à “escola de antigamente” e aos currículos mínimos.

Tal como Nóvoa, não tenho a mínima dúvida, apoiado na minha experiência directa na escola, que devemos (re)valorizar a escola como «organização centrada na aprendizagem», que sugere uma valorização da arte, da ciência e da cultura, enquanto elementos centrais de uma “sociedade do conhecimento”.

Estas ideias, que já foram mais impopulares há meia-dúzia de anos, porque os sinais de alarme e crise surgem todos os dias, vão contra as convicções dominantes. Daí a inexistência de vontade política, por parte das lideranças políticas e escolares, para assumir a resolução da tensão entre a escola social de acolhimento e a escola da aprendizagem, o que está a dar cabo da escola pública e da aprendizagem.

Devido ao fenómeno de democratização (massificação) do acesso ao ensino, um princípio nobre, a escola viu-se perante novos desafios. A escola tornou-se mais social e de acolhimento, ocupou-se menos e secundarizou as aprendizagens, a disciplina, o esforço, o trabalho, assumiu missões sociais de outros e embarcou na ilusão de que a escola poderia regenerar a sociedade, solucionar os seus problemas, criar um homem novo e reparar as injustiças sociais.

Ser um jovem oriundo de um meio social desfavorecido ou ter dificuldades pessoais não é álibi para tornar o seu tempo inútil (e dos outros) na escola, isto é, que estão na escola para trabalhar (ter ou cultivar uma atitude positiva perante o trabalho intelectual), crescerem como pessoas responsáveis e com valores humanos basilares. Para serem pessoas integradas e bem sucedidas e, pelo caminho, tornar o país mais produtivo.

Não concebo que a escola social de acolhimento dispense os valores da responsabilidade, o trabalho e a disciplina por parte dos estudantes que necessitam de ser apoiados nas dimensões pessoal e social. O processo de ensino-aprendizagem precisa de condições prévias para funcionar.

Não se espere, utopicamente, que o professor, empunhando a "varinha mágica" (segundo certos teóricos) da pedagogia, faz aprender quem não se concentra, quem "não quer saber", quem não trabalha, quem não se empenha, quem não respeita, quem não estuda. Como se fosse possível mudar o Homem e o Mundo a partir da sala de aula, independentemente dos contextos. O professor não é um deus.

NDS

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Com humor se ilustra a realidade na escola



Autoridade em crise na escola, bem como muitos outros valores como a responsabilidade, o trabalho e a disciplina, fundamentais para a aprendizagem.

Recorde-se:
Escola "a duas velocidades" é "escola de velocidade nenhuma"

sábado, janeiro 09, 2010

Insucesso escolar vem de longe 4

photo (c)

«Portugueses no Luxemburgo são os campeões do abandono escolar» foi título no Público de 04.01.2010.

Diz a notícia que, «de acordo com o documento [do Ministério da Educação do Luxemburgo], os alunos portugueses, que representam 19,1 por cento da população estudantil, são os que apresentam a maior taxa de abandono escolar entre os estrangeiros: 23,5 por cento do total de estudantes que abandonam a escola.

Entre os estudantes portugueses que deixaram a escola, 53 arranjaram trabalho, 19 beneficiaram de uma medida de inserção profissional, enquanto 106 não tinham qualquer ocupação.

Os alunos portugueses representam o maior grupo entre os estrangeiros que estudam no Luxemburgo. No ano lectivo de 2008/2009 estavam inscritos nas escolas públicas luxemburguesas 24.093 alunos luxemburgueses, 7046 portugueses, 1549 ex-jugoslavos, 963 italianos, 811 franceses, 456 belgas, 436 alemães e 319 cabo-verdianos. No Luxemburgo residem oficialmente 76.600 portugueses.»

Mais uma notícia a dar conta deItalic uma dura realidade que temos vindo a esmiúçar aqui neste blogue:

«Os alunos portugueses na Suiça obtêm os resultados escolares mais baixos entre as comunidades estrangeiras».

«A comunidade portuguesa no Canadá é uma das comunidades étnicas com maiores taxas de abandono e subescolarização.»

«Entre as minorias étnicas, as crianças de origem portuguesa são aquelas que têm os piores resultados escolares», na Inglaterra (área de Londres).

Tudo nestes links:

- Insucesso escolar vem de longe 3 (estudantes madeirenses na Madeira)
- Insucesso escolar vem de longe 2 (estudantes filhos de emigrantes portugueses na Suiça)
- Insucesso escolar vem de longe 1 (estudantes filhos de emigrantes portugueses no Canadá e Inglaterra)

Note-se a saudável mudança do nosso discurso entre os posts Insucesso escolar vem de longe 1 e o 2. Não há como o poder pedagógico da realidade.

Quem não tem experiência directa em escolas ou turmas com alunos indisciplinados e com uma acentuada atitude negativa perante o trabalho escolar (intelectual) nunca dará o real valor das dificuldades que os docentes passam todos os dias, no terreno, nem ao trabalho docente.

terça-feira, novembro 10, 2009

A árdua procura da felicidade

Viriato Soromenho-Marques falou da evolução do conceito de felicidade até à actualmente dominante felicidade mercantil, que não é suficiente para o ser humano ser feliz.
origem da fotografia

A conferência de Viriato Soromenho-Marques, A árdua procura da felicidade, construir a solidariedade na proximidade da solidão, integrada na II Conferência do Funchal: Merecer o Futuro, nos dias 6 e 7 de Novembro, ajudou a perceber o que move as pessoas, actualmente, na sua busca da felicidade.

Conhecer e compreender o que move o ser humano, na sociedade acual, nessa busca da felicidade é importante para os professores. Na escola, interessa ou não distanciar-se dessa «concepção fortemente mercantil de felicidade, que ignora os limites da Natureza e dos ecossistemas e que esquece a complexidade da condição humana, irredutível à voragem insaciável do processo de consumo.» Dessa complexidade humana fazem parte as suas dimensões imateriais, como a ética e a espiritualidade, com um papel fundamental no bem-estar e felicidade do Homem.

A felicidade desvinculou-se de terminadas dimensões humanas para servir a economia de mercado, o materialismo e o consumo. É a felicidade com «programa de realização aqui e agora», e com rapidez, que dispensa planos como o transcendental e o ético.

A felicidade moderna assenta na independência e nos interesses particulares, em que o indivíduo «se afasta da cidadania e se centra no consumo e no conforto.» Ele não se afirma como pessoa, «não deixa marca», é anónimo, perdido na multidão, e «não é reconhecido pelos outros». A felicidade é então uma «demanda individual». Essa afirmação e reconhecimento são estruturantes para o ser humano. Soromenho-Marques disse serem necessárias «escalas de participação» para o indivíduo.

«Nunca houve tanto conforto e tanta gente a sobreviver penosamente», disse o conferencista. A felicidade do hiper-consumo não é condição suficiente para a felicidade. Obedece a pulsões. Temos um consumo sempre crescente e desejos nunca satisfeitos.

Como disse Kant, citado na conferência, a felicidade na posse e na fruição é uma ilusão. Sabemos hoje, decorrente de estudos, que o aumento de rendimento per capita, a partir de dado valor, não traz mais felicidade ao indvíduo. Não lhe acrescenta felicidade.

Além do mais «felicidade não existe de forma estável e permanente».

Como sair do impasse e das várias crises que nos assolam actualmente e nos comprometem a real felicidade? Soromenho-Marques propõe um conjunto de princípios: da comunidade inclusiva, que se estende a todas as criaturas; da solidariedade entre gerações; da humildade prudente (em alternativa à arrogância tecnológica); da simplicidade voluntária na Arte de Viver, deixando espaço para os Outros (Ghandi: «Live simply, so that others may simply live...»); da natalidade como renovação; da cooperação compulsiva e da reconstrução da Acção política numa dinâmica sustentável.

Adriano Moreira, na sua intervenção na II Conferência Internacional do Funchal, sublinhou outro aspecto fundamental: «É preciso que os valores condicionem os valores do saber e do saber fazer». Diria ainda que «não basta informação e saber - faz falta os valores», isto é, a sabedoria.

Recordo José Augusto Fernandes a propósito dessa centralidade dos valores (irrenunciáveis) na nossa existência. À volta dos valores nunca nos enganamos. Estes nunca nos desconpensam ou desequilibram. Dão estabilidade. Quando estamos fora dos valores ficamos muito dependentes.

Nós movemo-nos à volta de centros de existência. Os centros da existência quando são muito móveis (como o consumo) geram instabilidade, insegurança e arrastam as pessoas com eles. Os centros fora do centro dos valores, se falham, conduzem à queda. É mau centro todo aquele que, se falha, arrasta a pessoa.

Mais informação:
Comunicações da II Conferência Internacional do Funchal

sábado, outubro 31, 2009

Resistir à pressão das massas para normalizar a bandalheira nas escolas

O segredo é não ceder aos "desvalores" do facilitismo e do laxismo actuais nas escolas, sem cultura de trabalho, disciplina e responsabilidade. Não se deixar levar pela irresponsabilidade de uma certa esquerda e de uma certa direita no que toca ao peso, para o sucesso escolar, dos valores do trabalho, da disciplina e da responsabilidade individuais dos estudantes.
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A mentalidade e contexto social actuais é de complacência geral face ao laxismo e ao facilitismo nas escolas. Quem se atreve a contrariar a moda e o politicamente correcto laissez faire, laissez aller, laissez passer, depressa é apelidado de vários nomes.

Isto vem a propósito da notícia intitulada Rédea curta na escola (Diário 25.10.2009), em que os «alunos da Escola Básica e Secundária do Porto Moniz estão cansados da disciplina e das regras de estudo, de não ter um minuto para descontrair e até já ponderaram a possibilidade de fazer uma manifestação.»

Cansados da disciplina e das regras de estudo... Será que é preciso dizer mais alguma coisa perante o tipo de valores que este gente defende? A malta quer o facilitismo e o laxismo («descontrair») que vê nas outras escolas, em casa e em outros espaços sociais. Daí a revolta contra a escola do Porto Moniz, um caso raro em que querem pôr os estudantes disciplinados e a estudar.

Como refere a notícia, a «agudizar o clima está a decisão do conselho pedagógico em descontar as faltas à sala de estudo na avaliação dos alunos do ensino básico. "É uma coisa mínima», refere o director Valter Correia, «mas a sala de estudo foi uma forma que encontrámos para combater o insucesso. Os alunos não aprendiam porque não faziam os trabalhos de casa, porque não traziam o material adequado. Agora, com a obrigação de ir à sala de estudo fazem os trabalhos de casa e os resultados melhoraram".

Se as medidas põem a malta a trabalhar, a reponsabilizar-se e a estudar, com efeitos evidentes na melhoria dos resultdos escolares (sucesso escolar), não deveriam antes estar gratos? Os valores do bom senso e da gratidão são bens escassos... A malta quer é direitos e nada de deveres, algo comum no pós-25 de Abril de 1974. Quer-se liberdade para a bandalheira, não para assumir deveres e responsabilidades.

Para Valter Correia o «mais importante é actividade lectiva, o estudo e o sucesso dos alunos. "É isso que garante a igualdade de oportunidades".» E questiona-se: "Estou aqui há tantos anos, os métodos são estes há anos e só agora é que se lembraram disto?

Alguns estudantes ouvidos pela jornalista dizem estar «cansados de ouvir discursos sobre os 'rankings' e o sucesso». Isto dá vontade de rir, não dá? Confirma-se que eles não querem saber do sucesso... Então que mudem de escola. Vão para uma escola que não exija rigor, disciplina, trabalho, estudo, responsabilidade. Existem muitas à escolha.

Esses estudantes, note-se bem, queixam-se de se dar prioridade aos «exames nacionais e ao estudo», face a actividades extra (desporto, visitas de estudo e a viagem de finalistas que queriam na Páscoa e a escola permite apenas no Verão). Confirmam de novo que querem festa e convívio antes de tudo, não o sucesso escolar, o trabalho, a responsabilidade. Será que não seguem os exemplos na sociedade? Que geração estamos a formar?

O director da escola refere: "As actividades são autorizadas só não podem comprometer as aulas. Podem fazer à quarta-feira à tarde, quando não há aulas, mas é verdade que não temos aqui as semanas disto e daquilo. Isso é perder tempo para dar os programas e distrair do que é importante". Com toda a razão. Apoio a 100% e elogio a sua coragem de contrariar o politicamente correcto e o facilitismo que se tornou natural nas escolas.

«A mais pequena indisciplina é punida de forma severa», diz o Diário. Não se pense que desatam à reguada na escola... «O director garante que é assim na Escola do Porto Moniz, nenhum tipo de indisciplina, sejam risinhos nas salas, atirar papelinhos ou andar à bofetada no recreio. Tudo é punido para que não fique pior, não se abrem excepções a ninguém. "Por muito inocente que pareçam são sempre uma tentativa de desautorização".»

E não é assim que deve ser? A direcção da escola tem de ter firmeza. Disciplina e firmeza é sinónimo, para a malta do pós-25 de Abril de 1974, de ditadura. O laxismo é de tal ordem que basta uma posição mais firme que deixa logo a malta "oprimida" e auto-apelidando-se de «escravos», como surge num comentário à notícia. Isto é muito revelador da bandalheira instalada.

O problema é Valter Correia ser um caso isolado, no bom sentido, no meio do facilitismo e laxismo geral que grassa pelas escolas da Madeira, do País, da Europa ocidental e da maioria das sociedades do chamado Ocidente. E é difícil remar contra a maré.

Valter Correia tem elevado os resultados da escola, mas afinal não é isso o importante. Interessa é entreter e divertir os alunos com actividades extra, isto é, com fantochada, com fogo-de-artifício, que os madeirenses bem gostam. Deixar a malta regozijar-se na lama do laxismo, em vez de garantirem melhores conhecimentos e competências para serem alguém na vida.

O rigor não é só para os alunos e há professores que não gostam do que lhes cabe. Sem querer ajuizar sobre uma realidade que não conheço bem, pode haver alguns exageros, não sei, penso que os docentes que valorizam as condições de trabalho na sala de aula, sem indisciplina ou má atitude perante o trabalho intelectual por parte dos estudantes, agradecem o rigor.

Quando um colega passou a trabalhar na escola do Porto Moniz disse-me que, em termos de disciplina dos alunos, passou do inferno para o céu, relativamente ao que sucedia na escola anterior. Este docente contraria a ideia que a disciplina e o trabalho estejam a «afastar professores e estudantes para outras escolas», como diz a notícia.

O Diário depois recorda que a «primeira vez que se ouviu falar das boas notas dos alunos da Escola Básica e Secundária do Porto Moniz em exames nacionais foi em 2006, logo depois de se conhecer os resultados das provas do 11º ano.» Na altura, a escola foi a «primeira do ranking regional e o caso mereceu destaque.»

«A disciplina, o estudo, a preocupação em chamar os pais à escola e o controlo às faltas dos professores foram a tónica das declarações do director da Escola numa reportagem publicada na então REVISTA do Diário. Já na altura Valter Correia dizia que era capaz de não renovar contratos a docentes que faltassem muito.»

Aqueles, incluindo escolas e docentes, que menosprezam alguns indicadores dos rankings, apesar de estarem longe de perfeitos e inviesarem algumas leituras mais simplistas, fazem-no porque surgem mal colocados nessa tabela. Então a reacção é atirar os problemas e a realidade para debaixo do tapete. É mais fácil. Assim não precisam de tomar medidas impopulares como Valter Correia.

Este comentário online à notícia, repleta de erros, a indicar que este estudante precisa de mais estudo e rigor, deixa tudo à mostra: «uma forma mais facil, divertida, com mais tempo para a vida adulscente, e outras coisas mais...Querem fazer todo da forma mais dificil, e sem se divertir...a vida acaba rápido...é perto dos 30 anos que se vai divertir..fazer coisas que eram supostas fazer na joventude, como ir a discoteca».

A malta quer é vida «fácil» e «divertida» porque a «vida acaba rápido»... Estudar, ser responsável, ter uma boa atitude perante o trabalho escolar não interessa para nada.

Mas, há outros comentários mais sérios, que não apelam ao facilitismo e ao laxismo: «Eu fui aluna nessa escola, já tirei um curso, actualmente já trabalho e tudo devo a esse PROFESSOR VALTER. Talvez se ele não tivesse tido mão pesada sobre a minha pessoa, não tivesse imposto regras, eu não fosse o que sou hoje: uma pessoa com oportunidades. Se há alguém que marcou positivamente o meu percurso pessoal e académico foi ele. Continue o bom trabalho! Oxalá houvessem mais escolas e professores como nessa escola.»

Outro ainda: «Afinal, o problema não é o professor ou a Escola!!! O problema é o cumprimento das regras, que, pelos vistos, os alunos não querem perceber. Pois... Então querem ter direitos e não cumprem os seus deveres? Se cada um de nós, como pessoa, cumprisse com as suas obrigações, a vida seria muito mais agradável, mais feliz, aproveitaríamos bem esta liberdade. Agora, apenas exigir menos rigor, sem nada fazer para tal, é absurdo. Que tal se começassem a cumprir com as regras? Já pensaram nisso? Experimentem! Não dói nada e fará de cada um de vós uma pessoa melhor e muito mais preparada para a vida.»

Recorde-se:
Menor qualidade e fraca atitude dos estudantes madeirenses
Indisciplina por resolver nas escolas da Madeira
Gastar mais e ter dos piores resultados
Insucesso escolar vem de longe 3
Insucesso escolar vem de longe 2
Insucesso escolar vem de longe 1
Laxismo e facilitismo significam exclusão social
Leste arrasa postura desculpabilizante

sexta-feira, outubro 30, 2009

Numa escola perto de si



Não é por acaso que surge mais um filme francês sobre o problema da indisciplina e violência nas escolas. Estreou este mês, em Portugal, o filme La Journée de la Jupe (O Dia da Saia), protagonizado por Isabelle Adjani.

Os argumentistas e realizadores reconhecem o potencial dramático da vida actual (vulgo bandalheira) nas escolas. Não é em França que há, como em Portugal, uma chamada «maioria sociológica de esquerda»? Uma certa esquerda adepta do facilitismo e do laxismo...

Só as as consequências efectivas obrigará os governos, as escolas e as sociedades a tomar medidas de bom senso. Deve fazer parte da decadência de boa parte das sociedades ocidentais... A escola reflecte logo a realidade social.

Alguém escreveu que se trata de um filme que «aborda de uma forma provocativa, de tão realista, os problemas que os professores enfrentam no seu dia-a-dia na formação das nossas gerações futuras.»

Curioso que, mesmo nas escolas, muitos não conseguem admitir a realidade. Quem está dentro do aquário não dá conta da água. Quem foi estudante e se formou como professor depois do 25 de Abril de 1974 tende a achar ainda mais natural a «bandalheira» nas escolas. É como o ar que se respira.

O Dia da Saia é «um drama sobre uma professora, Sonia Bergerac, vítima de descontrolo emocional causado pelo stress incutido pela indisciplina dos seus alunos. Um dia descobre na sala de aula uma arma a sair de uma mochila, toma-a e, à falta de melhor solução, usa-a para controlar os alunos he poder tentar dar a matéria. Um drama intenso que nos apresenta um rol de problemas habituais nas escolas francesas, mas também nas portuguesas, como indisciplina, abusos sexuais, racismo e até violência para com os docentes.»

Outra proposta em francês:
Entre Les Murs (A Turma)

sábado, outubro 17, 2009

Falar verdade

Falar verdade, por mais politicamente incorrecto que seja. Falar verdade, doa a quem doer.

"A educação em Portugal é um crime de «lesa-juventude»: Com a fantasia do ensino dito «inclusivo», têm lá uma data de gente que não quer estudar, que não faz nada, não fará nada, nem deixa ninguém estudar. Para que é que serve estar lá gente que não quer estudar? Claro que o pessoal que não quer estudar está lá a atrapalhar a vida aqueles que querem estudar. Mas é inclusiva.... O que é inclusiva? É para formar tontos? Analfabetos?"

"Os exames são uma vergonha. Você acredita que num ano a média de Matemática é 10, e no outro ano é 14? Acha que o pessoal melhorou desta maneira? Por conseguinte a única coisa que posso dizer é que é mentira! Está-se a levar a juventude para um beco sem saída. Esta juventude vai ser completamente desgraçada!"

"Isto da avaliação dos professores não é começar por lado nenhum. Eu já disse à Ministra uma vez «A senhora tem uma agenda errada"» Porque sem pôr disciplina na escola, não lhe interessa os professores. Quer grandes professores? Eu também, agora, para quê? Chegam lá os meninos fazem o que lhes dá na cabeça, insultam, batem, partem a carteira e não acontece coisa nenhuma. Vale a pena ter lá o grande professor? Ele não está para aturar aquilo... Portanto tem que haver uma agenda para a Educação. Eu sou contra a autonomia das escolas. Isso é descentralizar a «bandalheira»."

"Se aparece aqui uma pessoa para falar verdade, os vossos comentadores dizem «este tipo é chato, é pessimista».... Se vem aqui outro trafulha a dizer umas aldrabices fica tudo satisfeito..."

Medina Carreira
(Entrevista conduzida por Mário Crespo, Sic Notícias, 09.03.2009)

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quinta-feira, setembro 24, 2009

Discurso de Barack Obama aos estudantes em 08.09.2009





O discurso de Barack Obama aos estudantes americanos, em 8 de Setembro último, é interessante, embora possa ser contestado em alguns aspectos como "Eu já falei sobre a responsabilidade dos vossos professores vos inspirarem e fazer-vos aprender": aos professores não cabe sobretudo ensinar as matérias? Cuidado com o romantismo do "inspirar".

Destaco as passagens que resumem a minha luta nos últimos anos, em contexto escolar (parece que uma certa esquerda e uma certa direita, em Portugal - José Sócrates não tem coragem para seguir Obama nesta matéria: prefere entreter-se a desmotivar e a hostilizar os professores -, ainda não compreenderam o peso dos valores universais do trabalho, da disciplina e da responsabilidade do estudante no seu sucesso: preferem a complacência e o facilitismo, falsamente democratizantes e inclusivos, porque as pessoas não ficam preparadas para a vida real):

«At the end of the day, we can have the most dedicated teachers, the most supportive parents, and the best schools in the world – and none of it will matter unless all of you fulfill your responsibilities. Unless you show up to those schools; pay attention to those teachers; listen to your parents, grandparents and other adults; and put in the hard work it takes to succeed.»

«And that’s what I want to focus on today: the responsibility each of you has for your education. I want to start with the responsibility you have to yourself.»

«At the end of the day, the circumstances of your life – what you look like, where you come from, how much money you have, what you’ve got going on at home – that’s no excuse for neglecting your homework or having a bad attitude. That’s no excuse for talking back to your teacher, or cutting class, or dropping out of school. That’s no excuse for not trying.»

«No one’s born being good at things, you become good at things through hard work.»

Em português:

«No final do dia, podem ter os professores mais dedicados, os pais mais atenciosos, as melhores escolas do mundo e nada disso terá importância a não ser que todos vocês cumpram as vossas responsabilidades. A não ser que vocês compareçam a essas escolas, prestem atenção a esses professores, ouçam os vossos pais, avós e adultos e tenham o empenho necessário para obter sucesso.»

«E é nisso que eu quero focar-me hoje: na responsabilidade que cada um de vocês tem na vossa própria educação. Eu quero começar com a responsabilidade que vocês têm com vocês mesmos.»

«Mas no final do dia, as circunstâncias da tua vida - como te pareces, de onde vens, quanto dinheiro tens, o que está acontecendo na tua casa - não é desculpa para negligenciares o teu trabalho de casa ou ter uma má atitude. Não é desculpa para dar uma resposta rude ao professor, ou faltar às aulas, ou desistir da escola. Não é desculpa para não tentar.»

«Ninguém nasceu a saber bem as coisas, tornas-te bom por via do trabalho duro.»

Esta luta tem sido feita neste blogue:
Valores do trabalho e da responsabilidade moribundos nas escolas
Menor qualidade e fraca atitude dos estudantes madeirenses
Indisciplina por resolver nas escolas da Madeira
Realidade escolar
Insucesso escolar vem de longe 3
Insucesso escolar vem de longe 2
Insucesso escolar vem de longe 1
Gastar mais e ter dos piores resultados

quarta-feira, setembro 09, 2009

Formação: Uma Experiência Pedagógica Alternativa, partilha entre agentes de ensino

Acção de formação/partilha de experiências pedagógicas orientada pelos docentes Sofia Canha e Nélio Sousa, nos dias 9, 10 e 11 de Setembro, na Escola Básica e Secundária da Calheta.

HORÁRIO:

9 de Setembro: 09h00 às 13:00 e das 14:00 às 17:00
10 de Setembro: 09h00 às 13:00
11 de Setembro: 09h00 às 13:00

OBJECTIVOS:

-Contribuir para melhorar a qualidade do sistema educativo;
-Interpelar os docentes para suscitar a mudança
-Divulgar e partilhar experiências pedagógicas
-Dar a conhecer o modelo pedagógico da Escola Moderna
-Reflectir sobre as práticas no âmbito do MEM
-Partilhar materiais
-Construir materiais

PLANO/CONTEÚDOS DA ACÇÃO:

1.Enquadramento pedagógico do modelo proposto.
2.Relato/ partilha de experiências pedagógicas alternativas.
3.Divulgação de instrumentos e estratégias pedagógicas aplicadas nas aulas a partir da experiência com o modelo pedagógico do Movimento da escola Moderna.
4.Actividades de aplicação de conhecimentos.

segunda-feira, agosto 17, 2009

Estudar, pois...

«Um jovem lançar-se-á à difícil tarefa de estudar, se tiver, além de capacidade de sofrimento, motivação para isso. Motivação não significa que encontre gosto em estudar, mas que descubra motivos fortes para estudar: com gosto ou sem ele. Mesmo não lhe apetecendo estudar, sentar-se-á diante dos livros com a consciência de que há coisas bem mais importantes do que o seu apetite. Saberá que há um preço a pagar por todo o belo objectivo, e estará disposto a pagá-lo com alegria. Mas o objectivo tem mesmo de ser grande e belo. Verdadeiro e profundo. Do tamanho da alma humana.»
(Paulo Geraldo)

Responsabilidade e esforço

«Mas sucede que a responsabilidade não nasce senão depois de se ter cultivado cuidadosamente, demoradamente, a semente da responsabilidade. Passámos anos a fomentar no menino um estilo de vida irresponsável, e agora, de repente, exigimos-lhe que seja responsável? Passámos anos a apaparicá-lo, e agora queremos que seja maduro? Para ele ser maduro, teria sido necessário que tivesse vivido: que tivesse passado experiências diversas, que tivesse enfrentado obstáculos, que tivesse feito coisas sozinho, que tivesse errado e emendado depois os erros, que se tivesse aperfeiçoado à custa de esforço pessoal. E nós temos feito tudo para lhe evitar esses obstáculos, essas experiências e esse esforço.»
(Paulo Geraldo)

Esforço

«Os teus filhos, portanto, devem habituar-se desde pequenos a ajudar em casa, a prestar serviços na medida das suas capacidades. O lar, esse milagre quotidiano, deve ser também uma construção deles. Algumas vezes as tarefas que lhes deres exigir-lhes-ão um sacrifício custoso. Mas sem isso a casa não seria a sua casa: seria um lugar vazio, a pensão onde teriam de ir dormir e comer durante mais algum tempo, exigindo que os servissem sem falhas. Assim, porém, sentir-se-ão responsáveis por aquilo que foi também obra sua. Acabarão descobrindo por si mesmos as tarefas que é preciso realizar. Olharão para a casa, para os pais, para os irmãos com os olhos perspicazes do amor.»

«É claro que, quando chega a altura em que precisa mesmo de estudar, porque as matérias se tornaram mais difíceis, não é capaz de o fazer. Pois é natural que - não tendo sido habituado ao esforço de fazer a cama, de ir a pé para a escola, de pôr a mesa... - não seja capaz do esforço de estudar, que é maior do que os outros. É escusado levar o menino ao psicólogo. É escusado pensarmos que o problema está em que não sabe estudar, em que desconhece as técnicas de estudo. O problema dele são... os pais. Exactamente. Seremos capazes de mudar?»

«É realmente monstruoso que o trabalho infantil seja explorado. Ficamos chocados com isso, e fazemos muito bem, pois qualquer género de exploração é odiosa. Mas o trabalho durante a juventude é coisa útil e necessária. É a trabalhar que se aprende a trabalhar. É na juventude que se devem adquirir as capacidades - de esforço, de persistência, de concentração... - que o trabalho exige. O trabalho, com a medida adequada às características e à idade de cada um, edifica o homem. Molda-lhe as virtudes, o carácter e os músculos.»

«Este país está a encher-se de jovens que beberam a escolaridade obrigatória até à última gota e que agora não sabem fazer... nada. Vemo-los hoje frequentar todo o género de casas nocturnas com o dinheiro dos pais. Amanhã, como não aprenderam a trabalhar, terão de tentar sobreviver à custa de adaptações ou de truques, talvez não muito de acordo com a lei ou com os bons costumes.»
(Paulo Geraldo)

sábado, agosto 15, 2009

Vida ilusória na escola versus a dura realidade

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Depois de termos abordado o problema das ilusões que se criam na escola em Vida fácil na escola, chegou-me às mãos um texto de um aluno que confirma a análise.

O texto intitula-se «The Cops» e, no final, depois de expressar que não gosta de polícias, que são maus, violentos, entre outras coisas, conclui o seguinte: «If the cops were like some teachers, it would be much better.»

Este «se os polícias fossem como alguns professores, seria muito melhor» permite tirar conclusões claras, que prova a tal distância entre a vida na escola e a vida fora dela.

O estudante acha injusto se não o deixarmos fazer o que lhe apetece. Espera e pensa poder fazer lá fora o que faz dentro da escola. Espera e pensa obter a mesma brandura, complacência e falta de autoridade (impunidade) nos polícias que encontram na Escola e nos professsores.

Esperam que o mundo real seja como o ilusório mundo da escola, em que regras, disciplina e responsabilidade individual são altamente realtivizadas em nome da auto-estima (amor próprio) ou de um certo conceito de "inclusão" (manter os alunos dentro dos muros da escola).

O estudante chega à dura conclusão que o mundo real não é a escola, mas em vez de enfrentar a realidade refugia-se no mundo ilusório da escola: manifesta o desejo de que os polícias actuem como os professores. Pretende a mesma permissividade e complacência por parte das forças da ordem, do nosso Estado de Direito, que vive em meio escolar, em que muitas vezes não há consequências para os actos de transgressão que chocam com os direitos dos outros à sua volta.

quinta-feira, agosto 13, 2009

Novo paradigma de escola

CARREGAR O MUNDO ÀS COSTAS? NÃO OBRIGADO. Em lugar de andar a sonhar com ideais, mudanças de paradigma utópicas (baseadas na impossibilidade de criar um Homem Novo ou um Estudante Novo) e rupturas radicais, o meu intento ou desejo mais terreno é que se mude rapidamente do paradigma do facilitismo, do laxismo, da desresponsabilização, da atitude negativa perante o trabalho escolar e da complacência perante a indisciplina, para o paradigma da Responsabilidade, da Disciplina e do Trabalho na escola.
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Canso-me de ouvir teóricos sobre a educação, na forma como iludem premissas básicas e universais do processo de ensino-aprendizagem por parte do estudante (Trabalho, Disciplina e Responsabilidade) e apontam para o IDEAL, para uma mudança sonhada e radical de paradigma de escola, que sabem que não dá resposta aos problemas do momento presente nem do futuro próximo.

Pior do que isso, com um fundo claramente ideológico, procuram fazer passar a ideia de que esse novo paradigma de escola ou novos modelos pedagógicos como que dispensam, ou resolvem de forma espontânea, por arrastamento, a falta da disciplina, de trabalho e responsabilidade entre muitos estudantes na actualidade.

Muitos teóricos insistem nessa ideia do professor enquanto facilitador, orientador, organizador e criador das melhores condições possíveis para os estudantes desenvolverem a sua aprendizagem, mas depois atribuem ao professor, quando não depende só dele, a existência de disciplina, responsabilidade e trabalho nesses alunos.

Afinal, o professor tem de ser uma espécie de «faz tudo» ou «consegue tudo», um milagreiro, em que o seu carisma, liderança e sei lá o que mais tudo soluciona e resolve na sala de aula, mesmo perante os alunos mais indisciplinados, irresponsáveis ou aversos ao mais elementar empenho ou esforço.

Os teóricos ligados a uma certa esquerda evitam sempre o problema da indisciplina , da falta de responsabilidade e da atitude negativa dos alunos perante o trabalho escolar e relativizam o seu peso nos resultados escolares. Além disso, desresponsabilizam essa parte importante do processo de ensino-aprendizagem que são os estudantes e transferem a responsabilidade do sucesso ou insucesso escolar do aluno para o professor ou para a esfera social em geral. Muito cómodo.

Reiventar a roda, se isso é de alguma utilidade, pode ser um sonho belo, dar sentido a uma missão, pode ser uma utopia, um farol para uma caminhada, mas continuamos a perder de vista o essencial e os problemas prementes/reais que precisam de ser resolvidos de imediato, no quotidiano, como tentei alertar. Enquanto não chega o IDEAL, o novo paradigma, é preciso ir resolvendo as questões.

E não resolvemos muitos dos problemas no ensino continuando a dispensar o trabalho, a disciplina e a responsabilidade dos estudantes na escola, valores fundamentais em qualquer época, regime político, sociedade, cultura ou paradigma pedagógico/escolar.

São valores universais e basilares. Não existe nem existirá um novo paradigma de escola (por mais que se tente encontar sentido em reiventar a roda) que tenha sucesso sem esses valores fundamentais. Tem a ver com o fundamental da natureza humana.

Sei que é mais fácil e cómodo desviar o olhar para o longo prazo, esperar um acto messiânico ou acreditar que um modelo pedagógico, um modelo de avaliação, um modelo de sociedade, um regime político, um modelo IDEAL qualquer faça o milagre. Nunca se aprenderá, substancialmente, sem trabalho, sem disciplina, sem responsabilidade.

Antes de mudar o mundo ou criar um Homem Novo (e com ele a sociedade perfeita...), precisamos de, na escola, mudar urgentemente, neste tempo presente, do paradigma do facilitismo, do laxismo, da desresponsabilização, da atitude negativa perante o trabalho escolar e da indisciplina para o paradigma da Responsabilidade, da Disciplina e do Trabalho na escola.

Alguns teóricos da educação fazem lembrar um grupo de barbudos que, no PREC, queriam fundar o Homem Novo. Há quem pense que se pode fundar a Escola Nova, deitando abaixo a escola que existe e construindo de um momento a outro essa escola nova.

Enquanto não chega o IDEAL é preciso resolver os problemas terrenos e concretos com que lidamos todos os dias nas escolas, da forma mais directa, objectiva e realista possível. É incómodo mas é necessário.

Se não somos capazes de actuar e procurar minimizar desde já os problemas reais e evidentes que enfrentamos neste momento, nunca seremos capazes de mudar de paradigma de Escola no médio ou longo prazo, que é uma tarefa tremenda, levará imenso tempo e será muito lenta, porque o corte radical com o actual paradigma, excepto em casos isolados e em contextos especiais, nunca acontecerá com sucesso. A mudança será sempre progressiva.

domingo, agosto 09, 2009

Intransigir com a bandalheira

Renovar em Educação significa ter uma intransigência grande com a bandalheira ou a balbúrdia(facilistismo e laxismo) instaladas na escola pública, embora fruto de uma cultura social mais vasta - mas encarada e assumida como se fosse a coisa mais natural do mundo -, que se preocupa mais com a auto-estima (amor, falsa inclusão e ilusões) dos estudantes do que com os seus conhecimentos e competências efectivas.

A trilogia Trabalho, Responsabilidade e Disciplina são incontornáveis, independentemente do regime político do país, da cultura da sociedade ou da corrente/modelo didáctico-pedagógico em prática. Quem escamoteia esta base estruturante de valores na Educação e na Escola presta um péssimo serviço à Educação e à Escola.

sexta-feira, julho 17, 2009

«A balbúrdia na escola»

António Barreto considera que a principal inspiração do actual Estatuto do Aluno é a desconfiança dos professores. O documento oscila «entre a burocracia, a teoria integradora das ciências de educação, a ideia de que existe uma democracia na sala de aula e a convicção de que a disciplina é um mal.»

António Barreto, no Público (30 de Março de 2008), sob o título «A balbúrdia na escola», mostra que sabe do que fala. Como professor, subscrevo aquilo que já pensava sobre o Estatuto do Aluno aprovado pelo actual governo, que foi mais um passo no sentido do laxismo e facilitismo estudantil e da impossibilidade de haver autoridade, disciplina (consequência) e responsabilização nas escolas. Sem essas condições, não há trabalho, não há aprendizagens sugnificativas, não há melhores resultados.

Passemos ao texto:

«Os direitos dos alunos, consagrados no respectivo estatuto, são os mais abrangentes e absurdos que se possa imaginar.

As cenas de pancadaria na escola têm comovido a opinião. A última ocorreu numa escola do Porto e foi devidamente filmada por um colega. Em poucas horas, o clip correu mundo através do YouTube. A partir daí, choveram as análises e os comentários. Toda a gente procura responsáveis, culpados e causas. Os arguidos são tantos quanto se possa imaginar: os jovens, os professores, os pais, o ministério e os políticos. E a sociedade em geral, evidentemente.

As causas são também as mais diversas: a democracia, os costumes contemporâneos, a cultura jovem, o dinheiro, a televisão, a publicidade, a Internet, a permissividade, a falta de valores, os "bairros", o rap, os imigrantes, a droga e o sexo. Para a oposição, a culpa é do Governo. Para o Governo, a culpa é do Governo anterior. O trivial

Deve haver um pouco disso tudo, o que torna as coisas mais complicadas - sobretudo quando se pretende tomar medidas ou conter a vaga crescente de violência e balbúrdia. Se as causas são múltiplas, por onde começar? Mais repressão? Mais diálogo? Mais disciplina? Mais co-gestão? Há aqui matéria para a criação de várias comissões, a elaboração de um livro branco, a aprovação de novas leis e a realização de inúmeros estudos. Até às eleições, haverá debates parlamentares sobre o tema. Não tenho a certeza, nem sequer a esperança, que o problema se resolva a breve prazo.

De qualquer maneira, a ocasião era calhada para voltar a ver a obra-prima do esforço legislativo nacional, o famoso "estatuto do aluno". A sua última versão entrou em vigor em finais de Janeiro, sendo uma correcção de outro diploma, da mesma natureza, de 2002. Trata-se de uma espécie de carta constitucional de direitos e deveres, a que não falta um regulamento disciplinar. Não se pode dizer que fecha a abóbada do edifício legal educativo, porque simplesmente tal edifício não existe. É mais um produto da enxurrada permanente de leis, normas e regras que se abate sobre as escolas e a sociedade.

É um dos mais monstruosos documentos jamais produzidos pela administração pública portuguesa. Mal escrito, por vezes incompreensível, repete-se na afirmação de virtudes. Faz afirmações absolutamente disparatadas, como, por exemplo, quando considera que "a assiduidade (...) implica uma atitude de empenho intelectual e comportamental adequada..."! Cria deveres inéditos aos alunos, tais como o de se "empenhar na sua formação integral"; o de "guardar lealdade para com todos os membros da comunidade educativa"; ou o de "contribuir para a harmonia da convivência escolar". E também os obriga a conhecer e cumprir este "estatuto do aluno", naquele que deve ser o pior castigo de todos!

Quanto aos direitos dos alunos, são os mais abrangentes e absurdos que se possa imaginar, incluindo os de participar na elaboração de regulamentos e na gestão e administração da escola, assim como de serem informados sobre os critérios da avaliação, os objectivos dos programas, dos cursos e das disciplinas, o modo de organização do plano de estudos, a matrícula, o abono de família e tudo o que seja possível inventar, incluindo as normas de segurança dos equipamentos e os planos de emergência!

Trata-se de um estatuto burocrático, processual e confuso. O regime de faltas, que decreta, é infernal. Ninguém, normalmente constituído, o pode perceber ou aplicar. Os alunos que ultrapassem o número de faltas permitido podem recuperar tudo com uma prova. As faltas justificadas podem passar a injustificadas e vice-versa. As decisões sobre as faltas dos alunos e o seu comportamento sobem e descem do professor ao director de turma, deste ao conselho de turma, destes à direcção da escola e eventualmente ao conselho pedagógico.

As decisões disciplinares são longas, morosas e processualmente complicadas, podendo sempre ser alteradas pelos sistemas de recurso ou de vaivém entre instâncias escolares. Concebem-se duas espécies de medidas disciplinares, as "correctivas" e as "sancionatórias". Por vezes, as diferenças são imperceptíveis. Mas a sua aplicação, em respeito pelas normas processuais, torna inútil qualquer esforço.

As medidas disciplinares são quase todas precedidas ou acompanhadas de processos complicados, verdadeiros dissuasores de todo o esforço disciplinar. As medidas disciplinares dependem de várias instâncias, do professor aos órgãos da turma, destes aos vários órgãos da escola e desta às direcções regionais. Os procedimentos disciplinares são relativos ao que tradicionalmente se designa por mau comportamento, perturbação de aula, agressão, roubo ou destruição de material, isto é, o dia-a-dia na escola. Mas a sua sanção é de tal modo complexa que deixará simplesmente de haver disciplina ou sanção.

O estatuto cria um regime disciplinar em tudo semelhante ao que vigora, por exemplo, para a administração pública ou para as relações entre administração e cidadãos. Pior ainda, é criado um regime disciplinar e sancionatório decalcado sobre os sistemas e os processos judiciais. Os autores deste estatuto revelam uma total e absoluta ignorância do que se passa nas escolas, do que são as escolas. Oscilando entre a burocracia, a teoria integradora das ciências de educação, a ideia de que existe uma democracia na sala de aula e a convicção de que a disciplina é um mal, os legisladores do ministério (deste ministério e dos anteriores) produziram uma monstruosidade: senil na concepção burocrática, administrativa e judicial; adolescente na ideologia; infantil na ambição.

O estatuto não é a causa dos males educativos, até porque nem sequer está em vigor na maior parte das escolas. Também não é por causa do estatuto que há, ou não há, pancadaria nas escolas. O estatuto é a consequência de uma longa caminhada e será, de futuro, o responsável imediato pela impossibilidade de administrar a disciplina nas escolas. O estatuto não retira a autoridade na escola (aos professores, aos directores, aos conselhos escolares). Não! Apenas confirma o facto de já não a terem e de assim perderem as veleidades de voltar a ter.

O processo educativo, essencialmente humano e pessoal, é transformado num processo "científico", "técnico", desumanizado, burocrático e administrativo que dissolve a autoridade e esbate as responsabilidades. Se for lido com atenção, este estatuto revela que a sua principal inspiração é a desconfiança dos professores. Quem fez este estatuto tinha uma única ideia na cabeça: é preciso defender os alunos dos professores que os podem agredir e oprimir. Mesmo que nada resolva, a sua revogação é um gesto de saúde mental pública.»